TROVAS MINHAS (Ari Santos de Campos)

Sobre o mar sereno e triste
vou remando à luz da sorte. 
Porque ponte não existe 
na passagem para a morte.

x.x.x.

Justiça não mete medo
pela palavra que tem…
Dá medo, não é segredo,
é da injustiça de alguém.

x.x.x.

Quando me for desta vida,
não quero choro, senão
uma velinha acendida
com flores soltas no chão!

x.x.x.

Em nossa casa, de outrora,
– quero o teu riso escutar!
Em vez de risos, agora,
ouço um cão triste me uivar…

x.x.x.

Quando me for desta vida:
– lá na supra dimensão
vou cumprir pena contida
já de sentença na mão!

x.x.x.

Meu demônio faz pirraça:
quer usar meu coração…
– Se deixar me faz de graça,
do seu fogo, uma paixão!

x.x.x.

Vou à noite, na janela,
mergulhar na escuridão:
nas sombras o vulto dela
me sossega o coração!

x.x.x.

Do seu posto, à sentinela,
– sobre o teto do galpão,
galo duro de panela,
abre a goela, canta em vão!…

x.x.x.

Vou de braços à bebida,
– já devorei mil barris…
Para que serve esta vida,
se não me fazes feliz!  

x.x.x.

Galopei na corda bamba:
– fiz do mundo um desafio…
Sobre a vida que descamba
hoje eu zoa um vento frio!

x.x.x.

Vou remando de partida
num mar imenso de paz…
Mas as ruínas da vida
vão nadando, logo atrás!…

x.x.x.

Bate a chuva na janela,
o seu vento me assobia…
vou morrer tão longe dela:
dessa luz que me alumia!…

x.x.x.

Fico pasmo quando penso
na velhice que chegou:
com demônio nunca venço…
– Meu vigor já me levou!…

x.x.x.

No sertão, à luz de vela,
vou buscar minha rainha:
– minha vida, vida bela…
Para sempre, toda minha!

(Ari Santos de Campos)

 

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