OFICINA DE TROVAS

APARÍCIO FERNANDES

 A Trova pode ser classificada sob três aspectos; a forma, a mensagem (ou conteúdo) e a origem. Quanto à forma, podemos dividi-la em trova de rima simples e de rima dupla. A de rima simples é a mais antiga e a mais popular. Apareceu, segundo Luís da Câmara Cascudo, por volta do século XIII. É a que rima apenas o 2o. com o 4o. verso. Eis uma trova de Adelmar Tavares, que é um perfeito exemplo de trova de rima simples:

 

A inveja tem seu castigo,
Deus mesmo é quem retribui:
enquanto o invejado cresce,
o invejoso diminui…

 

A trova de rima dupla, como o nome está dizendo, é a que possui os quatro versos rimados entre si. É um tipo mais aprimorado, mais literário, mais artístico, embora, possivelmente, menos popular. A trova de rima dupla pode ter as rimas intercaladas, Isto é, rimando o 1.° com o 3° verso e o 2° com o 4°, ou internas, quando o 1.° verso rima com o 4° e o 2° com o 3°. Eis um exemplo de trova de rima dupla com as rimas intercaladas; é do trovador A. A. de Assis:

 

Desesperadora e triste
é a solidão dos ateus,
para os quais nem mesmo existe
a companhia de Deus.

 

Vejamos agora um exemplo de trova de rima dupla com as rimas internas, através desta linda quadrinha do saudoso poeta Gentil Fernando de Castro;

 

Que lição às nossas dores,
ó velho muro, desvendas!
— É na ferida das fendas
que mais te cobres de flores…

A trova de rima dupla interna é relativamente rara. Podemos considerá-la mais sofisticada, mais erudita e bem menos popular do que as suas irmãs, A tendência dos trovadores atuais é francamente pela composição da trova de rima dupla intercalada; num ensaio que se publicou, propôs-se que doravante só seja reconhecida como trova a quadra de rima dupla; ao que parece, Colbert Rangel Coelho e alguns outros trovadores são da mesma opinião. O certo é que, pelo menos nos inúmeros Jogos Florais e demais Concursos de Trovas que frequentemente são realizados em nosso país, já não se aceita as trovas de rima simples, que são automaticamente desclassificadas. Não acreditamos, porém, que a trova de rima simples venha a desaparecer, pois:

a) é muito mais antiga que a trova de rima dupla;

b) está consagrada pelo povo, sendo de feição nitidamente popular;

c) várias trovas antológicas, que o povo sabe de cor, são de rima simples;

d) é o caminho de acesso natural à trova de rima dupla, encontrando ainda muitos compositores, principalmente entre os trovadores iniciantes.

 

Guimarães Barreto, poeta e escritor paraibano residente na Guanabara, em seu livro “Excursão peto Reino das Trovas” (Irmãos Pongetti, 1962, Rio) diz o seguinte:

“As trovas, provenham de letrados ou iletrados, caracterizam-se pelos motivos que as criam e que, como as composições musicais, lhe servem de elemento essencial, O tema, ou assunto que as motiva, é quase tudo”. Concordamos, em parte, com a opinião acima, porquanto, embora as duas coisas se completem, damos mais valor ao conteúdo poético de uma trova do que propriamente ao artifício de sua forma. Por isso, somos tolerantes. Embora nossa preferência recaia na trova de rima dupla, não vamos negar a existência de trovas de rima simples belíssimas, que de modo algum podem ser relegadas ao ostracismo. Nossa concordância com o Guimarães Barreto termina quando ele escreve o seguinte:

“Há casos em que a própria rima se dispensa e basta a homofonia nas últimas sílabas tônicas dos segundo e quarto versos (rimas toantes), multo de agrado dos trovadores portugueses. Essa ausência de rimas não perturba a boa qualidade das trovas, mas, pelo contrário, lhe dá um sabor de originalidade, um novo motivo de encantamento:

 

Quem me vê eu ‘star sorrindo
não pense que estou alegre,
meu coração ‘stá tão preto
como a tinta que se escreve.”

 

Em nossa opinião, uma quadra só será trova se tiver as rimas conforme o figurino legal. As rimas toantes podem ser interessantes para poemas livres ou para sonetos inovadores. Na trova não, mesmo porque não se enquadram na definição de trova que é hoje aceita sem contestação, pelo menos no que se refere às rimas.

Na quadra mencionada por Guimarães Barreto notamos ainda a utilização do apóstrofo no 1.° e no 3° verso. Somos contrário não só aos apóstrofos, como às licenças poéticas e a todo e qualquer recurso apelativo na composição de uma trova. Quem é bom trovador, dispensa essas muletas: utiliza-se do vernáculo corretamente e nem por isso suas trovas deixam de ter a naturalidade musical de uma fonte cristalina.

Somos contrário até mesmo à utilização do termo pra em lugar de para, só o admitindo em casos especialíssimos. Uma trova com um pra dificilmente será uma trova de elevada categoria (vide nota). Quanto ao pro (para o), então, nem se fala…

Para terminar, vamos citar uma trova de Adelmar Tavares, de rima dupla intercalada, onde o poeta usa a mesma palavra para rimar o 1.° com o 3º verso:

 

Para matar as saudades,
fui ver-te em ânsias, correndo…
— E eu, que fui matar saudades,
vim de saudades morrendo…

 

E ainda uma outra, de Lia Pederneiras de Faria, que apresenta a curiosa particularidade de ter a rima “inha” nos quatro versos:

 

“Não há mãe melhor que a minha!”
— diz a filha à mamãezinha.
E a mãe sorrindo: – Filhinha,
melhor que a tua, era a minha!…

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* Nota: a contração “pra” pelas novas normas da UBT, é aceita tanto em trovas humorísticas como em líricas/filosóficas.

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Fonte: Aparício Fernandes. A Trova no Brasil: história & antologia. Rio de Janeiro/GB: Artenova, 1972

 

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OFICINA DE TROVAS

DEPARTAMENTO CULTURAL DA ORDEM

DOS ADVOGADOS DO BRASIL-RS

REALIZAÇÃO: UBT DE PORTO ALERGRE

 

1. MÓDULO 1 : NOÇÕES GERAIS SOBRE TROVA

 

CONCEITO: Trova é uma competição poética de quatro versos (linhas) setissilábicos, rimando o 1º com o 3º e o 2º com o 4º, expressando um sentido (pensamento) completo.

ORIGENS: A trova tem, provavelmente, origens no folclore. É também, chamada carinhosamente de “quadrinha” ou “versinho”. Em Portugal, chamam-na simplesmente QUADRA. A palavra TROVA vem de TROVER (Francês) e TROUBARE (Espanhol), ambas significando ACHAR. É por isso que se diz que toda boa trova é um ACHADO.

GÊNERO POÉTICO CLÁSSICO: Por seguir regras fixas, como rima obrigatória, metrificação, número de linhas e acentuação, a trova enquadrasse no gênero poético clássico, a exemplo do soneto, do haicai, do sonetilho, etc., e em contraposição aos gêneros modernos, como, por exemplo, o poema branco, o poema concretista, etc.

CLASSIFICAÇÃO OU GÊNEROS: Os principais são: lírico ou romântico, filosófico e humorístico. Mas existem também o educativo, o promocional, o religiosos, o sensual, o pornográfico, o brejeiro, o infantil, etc.

 

2. MÓDULO 2: DESMISTIFICANDO A TROVA

 

QUATRO VERSOS/LINHAS : Cada trova deve ter 4 linhas, nem mais, nem menos.

SETE SÍLABAS POÉTICAS EM CADA VERSO: Cada verso ou linha deve ter sete sílabas, contadas até à última sílaba tônica do verso. (As sílabas gramaticais se medem e se separam pela grafia; as sílabas poéticas se medem ou se separam pelo som)

RIMA ALTERNADA: Rima é identidade de SOM, respeitando-se sempre as licenciosidades poéticas. A rima, na trova, é alternada, estilo ABAB, ou seja, o 1º com o 3º e o 2º com o 4º versos.

PENSAMENTO OU SENTIDO COMPLETO: Cada trova deve conter um pensamento ou sentido completo, sendo desnecessário um título ou mesmo uma trova que venha explicá-la ou complementá-la. A trova, portanto, não precisa de título.

ELISÃO: Ou junção, é o encontro de vogais, ocasião em que se juntam pra formar uma só sílaba. Não se juntam, porém, quando a vogal da palavra anterior é tônica.

ENCONTROS CONSONANTAIS: O encontro de consoantes SEMPRE separa uma sílaba da outra.

DECÁLOGO: A UBT trabalha com um decálogo de metrificação, para orientar os trovadores, em suas dúvidas. Esse decálogo foi escrito por Luiz Otávio, o fundador da UBT.

 

3. MÓDULO 3 : IMAGENS, FIGURAS E SINTAXE

 

METÁFORAS, ANTÍTESES, ETC.: As figuras de sintaxe são largamente utilizadas na trova, por emprestarem uma beleza ímpar em tão curto espaço.

IMAGENS BELAS: Pelo mesmo motivo, ou seja, o curto espaço de 28 sílabas poéticas, toda trova deve portar uma bela imagem.

FLUIR: A linguagem utilizada pelo autor deve fluir, ou seja, ter facilidade na leitura, audição e recitação.

HARMONIA: O linguajar e as palavras devem guardar harmonia entre si quanto a sons, assim como deve ser observado o português correto, pontuação, etc.

DICIONÁRIO DE RIMAS: Para facilitar a busca, existem dicionários de rimas, encontrados principalmente em “sebos”, pois não tem sido reeditados. Ajudam muito.

 

4. MÓDULO 4: EVENTOS TROVADORESCOS – UBT

 

GRÊMIO BRASILEIRO DE TROVADORES, DE RODOLPHO COLEHO CAVALCANTI:

Fundado em 1958, buscava reunir os poetas da literatura de cordel e cantadores do nordeste. 1956: “MEUS IRMÃOS, OS TROVADORES” é, na verdade, o marco inicial do movimento trovadoresco no Brasil. Luiz Otávio reunia trovadores em sua casa desde 1948 e também tinha correspondência com centenas de trovadores do país. Em 1956, reuniu 3.000 trovas na coletânea citada e, pela primeira vez, deu uma definição de trova.

FUNDAÇÃO: 01.01.67: Em desarmonia com o GBT Nacional, e juntamente com os delegados da entidade das regiões centro-oeste e sul do país, nomeados por ele, Luiz Otávio desligou-se do GBT e fundou a UBT, que prosperou e logo alcançou todo país. Pouco tempo depois, O GBT extinguiu-se.

LIDERANÇAS INICIAIS: Luiz Otávio, J. G. de Araújo Jorge, P. de Petrus, José Maria Machado Araújo, Aparício Fernandes, Zálkind Piatigorski, Carlos Guimarães, João Rangel Coelho, Durval Mendonça, Elton Carvalho e outros.

UBT NACIONAL/ PIRÂMIDE: UBT Nacional, UBT´s Estaduais e a base, UBT´s municipais, que podem ser seções ou delegacias. As UBT´s municipais são entidades independentes, como estatuto, registro, CNPJ, contas bancárias e sócios próprios.

OBJETIVO ESTATUTÁRIOS: Estudo, cultivo e divulgação da trova e o congraçamento dos trovadores.

UNIÃO/ CONFRARIA/ DIFERENCIAÇÃO: Ao longo do tempo, foi-se formando uma grande confraria nacional, fruto dos Jogos Florais, dos encontros e mais recentemente da Internet.

OUTRAS ENTIDADES: ARTN, ABT, FEBET, Academia 3 fronteiras. UBT/RS: (Primeiras delegacias: Caxias e Uruguaiana) Composição atual: Seções: Porto Alegre, Pelotas Cruz Alta e Caxias do Sul; Delegacias: Uruguaiana, São Borja, São Gabriel, Dom Pedrito, Encruzilhada do Sul, Santiago, Taquara, Garibaldi, Viamão, Sapucaia do Sul, Itaara e São Lourenço do Sul.

UBT PORTO ALEGRE: Fundada em 08.03.69, mantém um Encontro de Trovadores e um boletim mais desde a fundação. Desde 1973 realiza os JF de Porto Alegre, tem um programa de rádio e um site. Sede própria, locada, uma biblioteca de aproximadamente 3.000 volumes.

 

CONCURSOS:

 

– Jogos Florais – significado das palavras

– Roma antiga, Competições atléticas e literárias em homenagem à Deusa Flora (Deusa da poesia e dos jardins)

– Idade Média, Tolouse (Fr), Academia dos Sete Mantenedores dos Jogos Florais – 1323 – Vitor Hugo,

– Portugal: JF da Rádio Nacional

– JF no Brasil: 1913, 1914 e 1915 – Jogos Florais das Normalistas de Santos; 1959: Jogos Florais da TV Rio, Programa de JG.

– 1958: Concurso de Poesias da Casa da Bahia

– 1960: I JF de Nova Friburgo ( Rodrigues Crespo/BH)

– 1963: I JF de Porto Alegre ( Prefeito: loureiro da Silva – Organizador: Walter Spalding)

– Como se realizam: binômio: cultura-turismo; modus faciendi moderno.

– Como participar de concursos de trovas: seguir regulamento Sistemas de envelopes – premiação.

Flávio Roberto Stefani – Pres. União Brasileira de Trovadores – Seção de Porto Alegre. Fones: 32416422 / 99863520

http://www.ubtportoalegre.portalcen.orghttp://www.falandodetrova.com.br

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