Trovadores de São Paulo

Izo Goldman-SP

1
A casa toda quebrada,
e o casal diz numa “boa”:
– Mas que furacão, que nada,
foi só uma briguinha à-toa!…
2
A grandeza imaginária
que todo vaidoso tem,
é uma estrela solitária
brilhando sobre… ninguém…
3
A Independência eu relembro,
meu Brasil, com muito orgulho:
– sonho em Sete de Setembro,
realidade em Dois de Julho!
4
Ao ser preso, o vigarista,
explica, muito matreiro:
– Sou apenas cientista,
faço “clones” de… dinheiro!
5
A queimada é um jogo insano…
A floresta pega fogo…
E, no fim, o ser humano
é o perdedor deste jogo!
6
A saudade me consome
e as angústias são pesadas,
quando eu murmuro teu nome
e o vento… dá gargalhadas…
7
A saudade não me poupa,
desenhando, fio a fio,
o perfil da tua roupa
no guarda-roupa vazio…
8
A sorte, esquiva e malvada,
não dá “chance”, só trabalho…
Eu a sigo pela estrada,
e ela foge pelo atalho!…
9
A vida pôs, por maldade,
tanta distância entre nós,
que, quando eu canto, é a saudade
que faz a segunda voz…
10
A violência eu detesto,
porque é pelo amor que eu luto,
sem amor o mundo é um “resto”
eternamente de luto!
11
Bate o sino em tom profundo,
lembrando a mulher que um dia
entregou seu Filho ao mundo,
sabendo que O perderia!
12
Cara cheia…Perna bamba,
ele mesmo se conforta,
olha a rua e diz: – “Caramba!”
Nunca vi rua mais torta!…
13
“Cara-metade”, em verdade,
é uma expressão… trapaceira…
– a gente quer a metade
mas tem que “engolir”… inteira…
14
“Casamento… – alguém já disse –
é chegar à encruzilhada
onde acaba a criancice
e começa…a criançada…”
15
Castro Alves, teu valor
está na contradição
do eterno escravo do amor
lutar contra a escravidão.
16
Coitado do Zé Maria:
– a mulher quase o esfola,
pois voltou da… pescaria…
co’um biquíni na sacola…
17
Com seu valor aumentado,
saudade é a restituição
do que já nos foi cobrado
pelos sonhos e a ilusão…
18
Contradição bem marcada,
que teima em nos separar:
– Meu amor toca a alvorada,
e o teu não quer acordar..
19
Coração não tem idade
quando vive de lembrança;
se a lembrança tem saudade,
faz, da saudade, “esperança”!
20
Depois que tu foste embora,
no meu peito, o desencanto
não desabafa nem chora,
não tem voz e não tem pranto…
21
Dois sentimentos moldados
no mesmo barro sem cor:
– é o ódio, pelos pecados,
pelas virtudes, o amor!…
22
É “Carcará” o apelido
do Zé, porque… come… e cisca…
Mas a mulher diz: – “Duvido!
Aqui em casa nem… belisca…”
23
Ele trouxe ao seu rebanho
muito amor e muita luz.
Barqueiro de um barco estranho,
talhado em forma de cruz!
24
É no rosto da criança
que o sorriso é mais bonito:
– tem a força da Esperança
e o tamanho do Infinito!
25
É nos momentos tristonhos
que eu peço à minha lembrança
que traga de volta os sonhos,
no aconchego da esperança…
26
Enquanto a guerra inundar
num dilúvio, a Terra inteira,
onde a pomba irá buscar
outro ramo de oliveira?!…
27
Enquanto eu tirava espinhos
das rosas que te ofertava,
deixavas nos meus caminhos
os espinhos que eu tirava…
28
“Esta peixada está quente!”
reclamava o Zé Maria;
e o dono do bar: – “Ó xente,
‘se qué’, tem pexera fria!”
29
Estás só…Mas, mesmo assim,
como se fora um castigo,
sinto um ciúme sem fim
do “ninguém” que está contigo!
30
És um arbusto florido…
Eu sou o vento que passa,
e, num delírio atrevido,
te despe e depois… te abraça..
31
Eu, na vida, sou barqueiro
dos meus sonhos sem destino:
– sonho bom é o passageiro,
sonho mau é o clandestino.
32
Eu sou príncipe tristonho
porque, na história real,
não há, na escada do sonho,
sapatinhos de cristal!…
33
Ficou rico o Zé Maria
na seca do Juazeiro,
vendendo “fotografia
de chuva”…por “dois cruzeiro”…
34
Foi no Grito do Ipiranga
que o povo outrora servil
sacudiu do jugo a canga
e fez gigante o Brasil!
35
Fui pirata, aventureiro,
no Mar da Felicidade;
hoje, a ferros, sou remeiro
na galera da saudade.
36
Jogam “xadrez” as nações,
e, no “jogo” em que se empenham,
sacrificam os “peões”,
para que os reis se mantenham.
37
Lá na casa da Maria
é muito estranha a porteira …
Não faz barulho de dia,
bate e range a noite inteira …
38
Marcando suas fronteiras
as bandeiras eram trapos,
e, os trapos eram bandeiras,
na Querência dos Farrapos!
39
Meu conflito e meu fracasso
é que as trovas que componho
têm sempre os versos que eu faço,
e nunca os versos que eu sonho…
40
Na Barra o que mais encanta
é o contraste bem marcado:
– o Rio, passando, canta,
e o sertão canta parado…
41
Na briga que o meu cabelo,
e a careca estão travando
lamento ter que dizê-lo,
a careca está ganhando…
42
Na cidadania existem
os deveres e os direitos,
e os “direitos” só persistem
se os “deveres” forem feitos!
43
Na imensa feira da vida,
as barracas da ironia:
– a das culpas – concorrida!…
a dos remorsos – vazia…
44
Na jangada a vela panda
parece um ouvido atento,
à espera de prece branda
que há no murmúrio do vento.
45
Na velhice, as incertezas,
para ocupar os espaços,
vão empilhando tristezas
e acumulando cansaços..
46
Nem o Sol pode entender
a estrela que ele namora:
– É “Vésper” no anoitecer,
mas é “D’Alva” à luz da aurora…
47
Nesta “corrida” da vida,
quando o Destino nos solta,
só sabemos na “saída”,
que a “corrida”… não tem volta!
48
Neste sesquicentenário,
meu Brasil, sinto presente
teu passado legendário
e o teu futuro ascendente!
49
No seu biquini apertado,
Maria me deixa mudo,
pois nunca vi “tanto nada”
cobrindo, tão pouco …”tudo”…
50
No viver o que mais cansa
são estas andanças vãs,
correndo atrás da esperança
e perseguindo amanhãs.
51
O pai da moça, que é mau,
Chega em casa e acaba o “baile”…
É que o Zé, “cara de pau”,
tava namorando em…”braile”!!!
52
O teu gesto de ternura,
na minha vida sofrida,
foi um copo de água pura
matando a sede da vida! …
53
” O trabalho é que enobrece!”
Dizem todos ao Raul.
E ele responde: – “Acontece,
que eu detesto sangue azul!”
54
Partir é quase morrer…
É deixar na despedida
um pouco do próprio ser
e muito da própria vida…
55
Partiste, e eu fiz o que pude,
num brinde à felicidade,
mas, quando eu disse -“saúde!”
ela respondeu… “Saudade…”
56
Peixinho mais mascarado
do que aquele eu nunca vi:
– só belisca anzol marcado,
“minhoca com… pedigre”…
57
Perdoa, amor, o meu jeito
de te olhar quando te vejo,
teu olhar me diz… “Respeito!”,
meu olhar te diz… “Desejo!”…
58
Pergunta o padre ao noivinho:
– “É de espontânea vontade?”
e ele respondeu baixinho:
– “Não senhor…necessidade!…”
59
Poeta do cativeiro,
nos teus versos triunfantes,
eu vejo um “Navio Negreiro”,
sobre “Espumas Flutuantes”!
60
Por artes do coração
Castro Alves foi vencido;
lutou contra a escravidão,
sendo escravo de Cupido!
61
Pulando do nono andar,
o otimista diz a alguém
que, no quarto, o vê passar:
– Até agora… tudo bem!!!
62
Quando o silêncio é uma prece,
sob a lua, em noite calma,
no meu bairro até parece
que as velhas ruas, têm alma…
63
Quando os “Dezoito do Forte”
marcharam, cabeça erguida,
não foi por desprezo à morte
e sim por respeito à vida!
64
Quando pergunta o burrinho,
diz a mula envergonhada:
– “Tu nasceste, meu filhinho,
por causa de uma…burrada!…”
65
Queimadas… Devastação…
Natureza poluída…
e os homens, por ambição,
destroem a própria vida!
66
Quem morreu naquela Cruz,
foi o Corpo e nada mais:
– ninguém apaga uma Luz
crucificando ideais!
67
Quem pela força conquista,
não conquista de verdade;
não há força que resista
à força da liberdade!!!
68
Sai do museu, braço dado
com sua sogra, o Sinfrônio:
– e o guarda grita, alarmado:
– “Tão roubando o patrimônio!”
69
Se a gente fosse dar crédito
ao que diz a maioria,
só de “autor de livro inédito”
tinha uns mil na Academia!…
70
Se a saudade embala a rede,
meu amor, de olhar frustrado,
vê, no branco da parede,
teu semblante desenhado…
71
Se a tua ausência magoa,
magoa mais a saudade…
Muitas vezes a garoa
molha mais que a tempestade…
72
Se disseres que, hoje em dia,
vivo no “mundo da lua”,
depois de um beijo, eu diria:
– “Vivo sim! E a culpa é tua!…”
73
Sem esquinas … sem saídas …
muitas vidas são assim …
Ruas retas e compridas,
e um grande portão no fim …
74
Se tu queres divulgar
uma notícia qualquer,
basta o fato confiar,
em segredo… a uma mulher…
75
Tem mais nobreza e valor
o triunfo conseguido,
quando, humilde, o vencedor
aperta a mão do vencido!
76
Têm uma força tamanha
as nossas trovas singelas,
que acendem, “Flor da Montanha”,
mais cento e cinquenta velas!
77
Teu “Adeus” eu não censuro,
censuro é um erro fatal:
– meu amor não fez “Seguro”
que pague a “perda total”…
78
Todo “barbeiro” sustenta
que a “batida” foi assim:
– “Veio um poste a mais de oitenta,
na contra-mão, contra mim!…”
79
Uma devota a rezar
é o que a rendeira parece,
faz da almofada um altar,
de cada renda, uma prece!
80
Velho Chico, eu te saúdo,
pois vencendo o rude agreste,
fazes, acima de tudo,
a redenção do Nordeste!
81
“Vem aí um furacão!!!”,
avisa a rádio, “Cuidado!!!”
e o genro por …precaução…
põe a sogra…no telhado!!!
82
Vencendo medos e mágoas
foi que o sublime barqueiro
que andava por sobre as águas
trouxe luz ao mundo inteiro.
83
Vendo alguém varrer o chão,
ele deita de comprido,
e, dá logo a explicação:
– “Quero ser…doido varrido…”
84
Virtude é fazer o bem
pelo prazer de fazê-lo,
mesmo sendo para alguém
que não fez por merecê-lo.
85
Zé Pescador não sossega,
mente tanto que dá gosto,
só que os peixes que ele… “pega”
têm carimbo do entreposto.

Marina Bruna-SP

1
A ciranda traz lembranças,
que a saudade perpetua,
de um tempo em que nós,
crianças,
éramos todas de rua…
2
Afeto infinito eu leio
nos olhos, cheios de brilho,
da mãe que desnuda o seio
e oferta seu leite ao filho!
3
Amena e doce ebriedade,
que a adega do tempo apura,
o amor, na terceira idade,
é um vinho de uva madura!
4
À noite, a areia da praia,
com rendas à beira-mar,
lembra um lençol de cambraia
onde se deita o luar…
5
A noite desfez, em contas,
o seu colar de cristal
e fez agrados nas pontas
da grama do meu quintal!…

6
Ante um berço, comovida,
e no adeus dos cemitérios,
fui aprendendo que a vida
é ponte entre dois mistérios.
7
A Primavera passou…
mas passou tão distraída,
que nem sequer se lembrou
de reflorir minha vida…
8
Aqueles grãos sem valor
– e eu fico pensando agora –
eram sementes de amor
e eu, sem querer, joguei fora…
9
A seca fora um martírio
mas, sob a chuva esperada,
vi o meu roçado em delírio
beijando a terra molhada!
10
A teu lado, mas… sozinho…
quantas noites, quantos dias
eu transbordei de carinho
mas te achei de mãos vazias.
11
A tua mão deslizando
no meu corpo, em leve afago,
é como a brisa encrespando
a superfície de um lago.
12
A tua ofensa me assusta
e, desta vez, digo “não”!
Quem ama sabe o que custa
ter que negar o perdão!
13
A vida insiste em manter
em dois tons sua canção:
– o mais agudo é o poder;
o mais grave, a servidão!
14
Blasfemar… sei que é errado
mas, Te pergunto, Senhor:
– se o amor que eu sinto é pecado,
por que me deste este amor?…
15
Bondes… quintais… lampiões…
Nesta saudade eu me abrigo
aconchegando ilusões
que envelheceram comigo…
16
Brinquedos velhos, em trapos,
sem importância parecem,
mas guardam, nos seus farrapos,
lembranças que não se esquecem.
17
Canta, Poeta! O teu canto,
de um sentimento profundo,
é o turíbulo de encanto
que vai incensar o mundo!
18
Colombo aos mares se fez
sem que o perigo o assustasse…
e, graças ao genovês,
ganhou, o mundo, outra face!
19
Combater… morrer herói…
não faz a luta perdida
se o ideal que se constrói
foi além da própria vida…
20
Como é grande a solidão
de um ator, que em sua estréia,
põe em cena o coração
e está vazia a plateia…
21
Crepita a floresta… e os ninhos
vão de roldão na queimada.
Que vai ser dos passarinhos
que não têm culpa de nada?
22
Da cruz, do açoite, do espinho,
de um sofrimento profundo
veio o sangue que, sozinho,
lavou as culpas do mundo!
23
Descalços, pelo gramado,
teus pés mansamente vão…
Pões, no pisar, tanto agrado
que eu tenho inveja do chão!…
24
Deus modela a nossa estrada
porém nós, em atos falhos,
modificando a jornada,
nos perdemos nos atalhos…
25
Ele partia e, na pressa,
prometeu que voltaria.
Hoje eu sei, não foi promessa.
Na verdade… ele mentia…
26
Em fortuna, eu tenho sido
qual uma agulha modesta
que borda um belo vestido
e a linha é quem vai à festa!
27
Em meu olhar recatado,
teu olhar viu, mas não leu,
a ternura de um recado
que o meu amor escreveu.
28
Enfim voltaste… mas peço
que este clima de alegria
envolvendo o teu regresso
não dure só por um dia…
29
Esta fé que me incentiva,
e em minha vida se espalma,
é uma luzinha votiva
na capela de minha alma!
30
Esta flor que me restou
num livro da mocidade
é um sonho que se tornou
medalha de uma saudade!
31
Eu faço um apelo mudo
na velhice que me alcança:
– Destino, tire-me tudo
mas não me roube a esperança!
32
Eu não cobro desta vida
as respostas que ela esconde.
Se a minha razão duvida,
a minha fé me responde.
33
Eu nunca amarei um poeta
mesmo que ele me seduza
pois seu verso, de alma inquieta,
vagueia, de Musa em Musa!…
34
Eu te espero… Tu demoras…
Pela noite, o tempo avança
e, no cansaço das horas,
vai se apagando a esperança.
35
Falo de tuas ausências
à garoa, que não passa
e ela deixa reticências
sobre o frio da vidraça.
36
Fim do amor… mas nosso enredo
restou em minha lembrança,
como ficou em meu dedo
a marca de uma aliança…
37
Finges dormir… e eu, sozinho,
sofro o que a briga nos fez:
– pôs no espaço de um carinho
a muralha da altivez!
38
Foi num mar encapelado
que o meu barco de ideais
naufragou de tão pesado:
– tinha esperanças demais!
39
Grande humildade é a do mar
que, de um reino onde se alteia,
vem à praia rendilhar
as saias brancas da areia!
40
Homem bom de rosto feio!
Tua aparência enganosa
lembra a pedra cujo seio
guarda uma gema preciosa!
41
Impiedoso, o fogo avança
e a floresta, calcinada,
perde o verde da esperança;
ganha o cinza do mais nada!
42
Meu viver lembra uma estrada
com mistérios para mim:
– do começo não sei nada…
não sei nada do seu fim…
43
Minha fortuna eu desdenho
quando vejo, em solidão,
que o carinho que eu não tenho
sobra em muito barracão!
44
Morrem florestas, açudes,
e o mundo, pobre de afeto,
perde os versos e as virtudes:
– vira selva de concreto!
45
Na história de tua vida
sou apenas, sem escolha,
uma sentença esquecida
no rodapé de uma folha…
46
Na insônia da solidão,
eu só sei que o tempo passa
porque escuto um carrilhão
dando as horas, lá na praça!
47
Nas águas turvas dos rios,
os venenos poluidores
nos darão dias sombrios
de primaveras sem flores…
48
Nas letras quase sem cor
de um diário escrito a medo,
guardo as mensagens do amor
que sempre foi meu segredo…
49
Na tarde cálida e mansa,
o tempo quase não passa
e até o silêncio descansa
nos velhos bancos da praça.
50
Neste ano novo eu pretendo
rasgar meus dias tristonhos
e, de remendo em remendo,
reconstruir os meus sonhos…
51
Nosso amor, hoje em desgaste,
fez do convívio um açoite…
Tempo! Por que não paraste
naquela primeira noite?
52
Nosso amor hoje é passado
e, apesar de breve história,
persiste, ainda, ancorado
no cais de minha memória.
53
Num foguetório cerrado,
o céu junino reluz
qual um chuveiro dourado
pingando gotas de luz!
54
O coração nunca esquece
as mágoas de uma traição…
Quem trai, no amor, não merece
a largueza do perdão!
55
O cheiro de flor que invade
a varanda, onde eu me abrigo,
engana a minha saudade
e eu penso que estás comigo.
56
O destino rege as vidas
num balé, cujo andamento
lembra o das folhas caídas
dançando ao sabor do vento…
57
O flerte, as voltas na praça,
o tempo levou embora
e o amor foi perdendo a graça
sem o respeito de outrora…
58
O que mais feriu minha alma,
relendo os bilhetes teus,
foi ver a grafia calma
com que me escreveste “Adeus”!
59
Ó Senhor, eu te agradeço
pois vejo, em teus filhos sãos,
uma fortuna sem preço
que puseste em minhas mãos!
60
Ousei te amar sem medida,
sem cautela, sem pudor…
e hoje pago, arrependida,
por esse instante de amor…
61
Partias… mas, era tarde
para eu tentar te deter…
E nessa omissão covarde
te perdi… sem combater…
62
Parto… não levo saudade…
as desavenças são tais,
que a minha e a tua verdade
já são mentiras iguais.
63
Passei a viver tristonho
depois que encontrei, surpreso,
o limite do meu sonho
no muro do teu desprezo!
64
Pela noite, atormentado,
eu vou desfeito em pedaços,
invejando o afortunado
que dorme envolto em teus braços!…
65
Pessoas que, na ilusão,
cantam virtudes sem tê-las,
são como as poças do chão
que pensam conter estrelas.
66
Primeiro amor… é a ternura
que a nossa memória enfeita.
É como a fruta madura
de uma primeira colheita…
67
Prostrado… na dor infinda
de um desprezo que o consome,
meu coração bate ainda,
porque murmura o teu nome…
68
Quando ao teu corpo eu me rendo,
tuas mãos, com muito ardor,
em silêncio vão dizendo
loucas palavras de amor!
69
Quando a vida aperta o cerco
nos ideais que eu persigo,
quanto mais combate eu perco,
tanto mais lutando eu sigo!
70
Quanto sonho se vislumbra
numa esteira, à luz da vela,
quando um amor e a penumbra
se encontram numa favela!
71
Quebra o trenzinho… eu conserto
e sinto, ao vê-lo nos trilhos,
a minha infância mais perto
quando eu brinco com meus filhos.
72
Que eu te esqueça… não me peças…
Não me obrigues a fingir
e a fazer falsas promessas
que jamais irei cumprir.
73
Que o amor faz sofrer… sabia…
mas, mesmo assim, eu te amei
e, agora, a sabedoria
vive a dizer: – Não falei?…
74
Quis te falar… mas não pude…
Então te dei uma flor.
As flores têm a virtude
de saber falar de amor…
75
Revendo o resto da história
do nosso amor, eu senti
que apagaste da memória
o que eu jamais esqueci…
76
Sabiá, guarda teu canto!
Eu sei que o dia é bem vindo
mas não despertes o encanto
que em meu leito está dormindo!
77
Se alegres, vão repicando;
se tristes, plangem com calma…
E eu fico, às vezes, pensando
que os sinos também têm alma!
78
Sem aliança no dedo,
sem altar, sem certidão,
quanto amor vive em segredo
com laços no coração!
79
Sem muros, as casas pobres
trocam favores, carinhos…
enquanto que em ruas nobres
ninguém conhece os vizinhos.
80
Se um dia o céu censurar
o nosso amor, não aceito…
e a teu lado hei de encontrar
um outro céu… mais perfeito!
81
Sigo em frente em meus trabalhos,
porém não sigo sozinho.
Com Deus, que aponta os atalhos,
encurto muito caminho.
82
Sobre seda ou algodão,
na trama dos figurinos,
o Supremo Tecelão
faz desiguais os destinos.
83
Sobre os espelhos fanados,
o tempo, em seu transcorrer,
passa escrevendo recados
que não gostamos de ler…
84
Tão suave é o teu carinho
que eu penso, quando te enlaço,
que o meu corpo é um passarinho
que fez ninho em teu regaço…
85
Tem pena de minha dor!
Por favor, usa a franqueza!
Pois as dúvidas, no amor,
maltratam mais que a certeza!
86
“Terra à vista”! e, em praias calmas,
foi ancorando Cabral.
E o destino bateu palmas
nos unindo a Portugal!
87
Teu adeus me machucou
mas eu creio, sem revolta,
que a rua que te levou
trará teus passos de volta!
88
Teu amor… quase acabado…
Mas, tentando me iludir,
sigo sofrendo a teu lado
sem coragem de partir…
89
Teu desprezo me magoa.
Não me queres, não te forço.
Mas, o que mais me atordoa
é não sentires remorso…
90
Teu olhar não me diz nada
mas, sem querer, eu me iludo
e em delírio, apaixonada,
transformo o teu nada… em tudo!
91
Tímida, não disse nada,
mas o sorriso que deu
foi a mensagem cifrada
que o meu amor entendeu…
92
Traz de longe, a brisa branda,
o jasmim da tua essência
e inebriada a varanda
nem percebe a tua ausência.
93
Tua carícia atrevida,
num suave dedilhado,
musicou a minha vida
com acordes de pecado.
94
Tu chegavas… e eu ouvia
o trem, em tons comoventes,
tocar canções de alegria
no teclado dos dormentes…
95
Tu fizeste um leve aceno
e a esperança que me deste
teve o alento de um sereno
caindo num solo agreste!
96
Um pintor, em seu delírio,
ante a jangada a vogar,
pensou ver um branco lírio
na tela imensa do mar.
97
Vão ficando tão distantes
os carinhos do passado,
que nem sei se o que era antes
foi vivido… ou foi sonhado…
98
Vêm mais tarde os desarranjos
e nos transformam de vez
mas, na infância somos anjos
do jeito que Deus nos fez!
99
Vem setembro… e algumas flores,
nos galhos desabrochando,
trazem notícias em cores
da primavera chegando…
100
Vou, na insônia de meus passos,
esquecer, na boemia,
que um felizardo, em teus braços,
dorme o sono que eu queria…
101
Vou te escrever… prometias…
e desta jura refém,
espero dias e dias,
mas a mensagem não vem…

Selma Patti Spinelli-SP

1
A crise nos invadiu…
pindaíba nacional:
– não sei se o real caiu
ou se eu “caí na real”…
2
Amor de perdas e danos,
triste contabilidade:
– resgate dos desenganos,
sobras de caixa-saudade!
3
Ao pecador, decaído,
se não podes fazer nada,
estende a mão, decidido,
e ajuda na caminhada!
4
Ao ver a filha enjeitada,
o “coronel manda-chuva”
diz:” – Não quero desquitada:
– filha minha… só viúva!”
5
A platéia se espantou:
– o ator saiu do roteiro,
desesperado, e gritou:
– “Meu reino por um banheiro!”
6
A Professora parece
um lavrador a colher
ouro puro em sua messe
no garimpo do Saber!
7
Aqueles a quem indago,
– e a resposta não me vem –
Será que apito de gago
a-pi-pi-ta assim tam-bém?
8
A ratazana e o ratinho
brigaram feio, de fato:
– foi ciúme do vizinho,
que, na verdade, era um “gato”!
9
A saudade é, certamente,
sentimento eternizado,
um recado que o presente
manda de volta ao passado!
10
A semente, pequenina,
sob a terra protegida,
é assinatura divina
no grande livro da vida.
11
Até no “terreiro” em prece,
é preguiçoso, o farsante:
– quando o “santo” dele desce,
só vem… de escada rolante!
12
Brindemos à despedida,
que em nosso gesto imaturo,
ela é a única saída
para um amor sem futuro!
13
Carinhos de filhos, quero!
Fazem bem ao coração:
– São frutos do amor sincero;
São frutos da gratidão!
14
Com a bagunça rolando,
sem ter mais o que falar,
chilique, de vez em quando,
bota tudo no lugar!
15
Com tanta delicadeza,
um regato a serra desce…
E eu tenho quase certeza
que a própria serra agradece!
16
Com todo dinheiro em jogo,
seguro não cobre a casa:
– marido sempre “de fogo”,
e a mulher… “mandando brasa”!
17
Das estrelas não esperes
mais que palavras ao vento;
as estrelas são mulheres
que piscam sem sentimento.
18
Deixa a lágrima rolar…
Deixa teu pranto fluir…
Quem nunca sabe chorar
não é capaz de sorrir.
19
De manhã sou funcionária,
à tarde mãe e chofer,
cozinheira, secretária…
À noite, enfim, sou mulher!
20
Desavenças de rotina;
palavras duras ao leito
o casamento termina
quando termina o respeito!
21
Disfarço meu sonho triste
nas cordas do bandolim,
porém o chorinho insiste,
sem querer, fala por mim!
22
Ela tarda mas não falha;
enfrentá-la é meu fadário…
A noite é como navalha
na carne do solitário!
23
Estou só… Mas sou feliz;
vou vivendo mesmo assim:
– por escolhas que não fiz,
mas a vida fez por mim!
24
É tão esnobe, tão tolo,
o doutor, entre os decanos,
que até na vela do bolo
põe algarismos romanos!
25
Imagino a cena inteira:
– um piano, um vinho quente,
nós dois ao pé da lareira,
e tudo que o amor consente!
26
Marinheiro! Escolhe o rumo!
Porque a vida é um mar errante…
Somente com o barco a prumo
é que se pode ir adiante!
27
Meu destino foi traçado
quando a onda, no convés,
veio forte, e de bom grado,
me fez cair aos teus pés!
28
Morena, que te amo tanto,
e desprezas meus desvelos:
– deixa afogar o meu pranto
nas ondas dos teus cabelos…
29
Na dança, que pantomima.
Deu-se o maior esculacho:
– a moça era “tudo em cima”,
mas não tinha nada embaixo!
30
Não atires ao desterro
o teu irmão que pecou…
É bom combater o erro,
mas não aquele que errou!
31
Nas cartas, sê verdadeiro!
Cuida bem tudo o que dizes:
– pois cartas são travesseiro
nas noites dos infelizes.
32
Nas fendas que o sol calcina,
da seca em rude aspereza,
os pingos da chuva fina
são beijos da natureza!
33
Nela é bonito, elegante…
Nele… esquisito, incomum:
– gingada é interessante,
Mas não é pra qualquer um !!!
34
No embalo da serenata,
quisera ser como a lua
vestindo com tons de prata
os homens tristes da rua!
35
No lar do pobre indefeso,
relegado em agonia,
esperança é o fogo aceso
na panela ao fim do dia!
36
No refúgio desmanchamos,
quando ficamos a sós,
esses nós que carregamos
no fundo de todos nós!
37
Num concurso de comida,
quem concorreu foi otário,
porque o prêmio, ao fim da lida,
era um vaso… sanitário!
38
Num concurso de embolada,
capricharam tanto, os dois,
que a dupla foi premiada
aos nove meses depois!
39
O dentista dedicado,
capricha na dentadura…
Mas não se dá por achado:
– capricha mais na fatura!
40
O Poder, às vezes, cega…
e uma injustiça acontece;
mas a vida se encarrega
do castigo a quem merece!
41
O vento leve do estio
espalha as folhas sem dono;
e a terra, fofa, no cio,
se entrega aos braços do outono.
42
O vento, zéfiro alado,
cavalga a onda e ponteia:
– e a onda, num rendilhado,
vem descansar sobre a areia.
43
Paixão, por quem não esqueço;
(lembrança boa e ruim)
por quem me viro do avesso
e nem se lembra de mim!
44
Qual rio que em seu começo
procura um curso, um regaço,
no teu braço eu adormeço
e me esqueço do cansaço…
45
Quando a inspiração vagueia
à procura de um motivo,
o meu passado passeia
em cada verso que eu vivo.
46
Quando me pego tristonho,
de pensamento disperso,
tiro um sonho de outro sonho,
vou passear no universo!
47
Quando o pecado acontece
por algum amor insano,
o ser humano parece
que se torna mais humano!
48
– Que dança é essa, Maria,
que você se espatifou?!
– Nós treinamos todo dia;
desta vez o Rock errou.
49
Quem dera se a vida fosse
mais simples de ser vivida:
– nem todo regresso é doce,
nem sempre é amarga a partida…
50
Quem, no rumo desta vida,
se distrai na caminhada
pode acertar na partida,
mas pode errar na chegada.
51
Que tu sejas, nos teus brios,
quando buscares a glória,
altivo nos desafios
mas humilde na vitória!
52
Se é verdadeiro que é o cão
maior amigo da gente,
amigo de comilão
deve ser “cachorro quente”!
53
Segredos… quem não os tem?
Os meus segredos bendigo:
– os maus – não conto a ninguém;
os bons – eu guardo comigo!
54
Ser dotado de Razão,
Um homem adulto sabe:
-não há virtude em vão;
-nem vício que não se acabe!
55
Serras íngremes, carpadas,
tão difíceis na subida,
são metáforas caladas
dos infortúnios da vida!
56
Sou fiel e não te nego
este dever que é uma lei:
– Não pelo amor que foi cego,
mas pelo “sim” que te dei!
57
Sozinha em meu devaneio,
saudosa no meu queixume,
eu brindo ao vento que veio
devolver-me o teu perfume!
58
Tu chegas de madrugada,
cabisbaixo e sempre mudo…
E o silêncio da chegada,
sem palavras, já diz tudo!
59
Tu choravas… eu partia…
Os sonhos despedaçados;
e a garoa que insistia
em ter meus olhos molhados!
60
– Vai um chopinho? É do bom!
– Eu só bebo destilado.
E o otário do garçom
pôs o copo do outro lado.
61
Vejo em frente, ali na praça,
só lixo, trapos e panos;
e, para a minha desgraça,
no meio – seres humanos!