Trovadores de Minas Gerais…

Arlindo Tadeu Hagen – MG

1
A casa quase vazia
mostra ao ator, numa trama,
que outro drama se inicia
quando ele encerra o seu drama
2
Acompanhado ou sozinho,
segue em frente, sem parar,
que é bem mais longo o caminho
dos que não querem andar!
3
A favela é lá no alto
e muito farta contudo.
Farta esgoto, farta asfalto,
farta luz e… farta tudo!
4
A madame tem motivo
de viver enciumada:
– é mulher de executivo
sem ser muito executada!
5
A mulher baixa a moral
do marido roncador:
– Nem sempre o ronco é sinal
de potência do motor.

Ante a clonagem desmaia
o cientista pouco esperto
fez a sogra de cobaia
e a experiência deu certo!
7
Ao te esperar, na agonia,
entre o dilema e a incerteza,
minha vida é tão vazia
que transborda de tristeza
8
A saudade em meu destino
é uma criança levada
que, brincando, bate o sino
de uma igreja abandonada.
9
As ruas são labirintos
onde eu noto, em profusão,
milhões de dramas distintos
vagando na multidão!
10
A tempestade mais feia
ao crente não intimida.
Deus é o farol que clareia
o mar escuro da vida.
11
Bate à porta… e a desconfiança
põe o Salim na agonia:
– tem mais medo de cobrança
do que gato de água fria!
12
“Boa viagem” – perdoa
mas te atender não consigo
que a viagem só é boa
quando tu segues comigo!
13
Cansei de crer tolamente
nos meus sonhos de menino.
Nem sempre o que agrada a gente
também agrada ao Destino.
14
– Casamento é mesmo o fim!
diz ela, no seu enfado,
– Quem suspirava por mim
agora ronca ao meu lado!…
15
Como negar evidências
sobre um Ser especial
se, na essência das essências,
Deus é sempre essencial!?…
16
Criança, eu ia brincar
nas poças-d’água, sozinho.
As poças viraram mar
e eu continuo um barquinho!
17
Despedida… e, por consolo,
neste encontro derradeiro,
só me resta o orgulho tolo
de ter dito adeus primeiro!
18
Diz o burro: – Não dá pé
minha paquera travessa!
Não sei fazer cafuné
numa “mula sem cabeça”!!!
19
Do trigo da meninice
e do pão da mocidade
só restaram na velhice,
as migalhas da saudade!
20
É catarata… enfisema…
Minha sogra é problemática!
A velha tem mais problema
que prova de Matemática!
21
Ela vive namorando
no escurinho atrás do muro
e por isto andam chamando
seu namoro de … “namuro”!
22
Ela voltou de surpresa
e eu pude assim, num só dia,
após chorar de tristeza
também chorar de alegria!
23
Enfrento a dor com firmeza
e conservo em minha fé
a altivez da vela acesa
que se desmancha de pé.
24
Enganador é o Ramiro,
que finge como ninguém,
e só de “último suspiro”
ele já deu mais de cem!…
25
Eras corda enfraquecida…
e eu era uma corda só…
Fez-se o nó… e a mão da vida
jamais desfez este nós!
26
Era um tango… Foste embora
me deixando em desatino…
e a minha saudade agora
tem um sotaque argentino.
27
Erramos… erramos tanto
e os nossos erros banais
nos fizeram, por encanto,
dois infelizes iguais.
28
Esta paixão indomável
de emoções tão incontidas
é uma força incontrolável
que controla nossas vidas.
29
Eu não troco as ilusões
pelos caminhos mais certos.
Meu sonho de abrir portões
despreza os portões abertos.

30
Eu te imploro, por favor,
não insistas neste adeus.
Se não for por meu amor,
fica pelo amor de Deus!
31
Existe tanta união
entre os teus sonhos e os meus,
que só não és meu irmão
por um descuido de Deus!
32
Faltaram surpresa e encanto
em nosso encontro no cais…
Eu te esperei tanto, tanto,
que eu nem esperava mais…
33
Foi Luiz Otávio, exaltado
em sua luta mais bela,
um Príncipe apaixonado
pela Trova Cinderela.
34
Garimpeiro, pelos vãos
dos teus dedos que envelhecem,
muda a riqueza de mãos
para mãos que não merecem.
35
Indecisos, nossos dias
vivem dilemas sem fim,
revezando as fantasias
de pierrô e de arlequim…
36
Infância é um brinquedo usado
que um dia a vida resolve
tomar um pouco emprestado
e nunca mais nos devolve.
37
Lembrando o amor que a iludia
minha alma, feliz, revive…
Eu sei que foi fantasia
porém foi tudo que eu tive!

38
Maria é um resto somente
no cais, largada ao desdém…
ontem – mar de tanta gente…
hoje – porto de ninguém!…
39
Meu coração sofredor
nunca teve a liberdade.
Ontem – escravo do amor…
Hoje – refém da saudade…
40
Meu coração tem lutado
na guerra contra a razão:
– soldado, à força alistado
no exército de paixão!
41
Meu sogro cheio de medo,
tenta a peruca esconder
e o que ele guarda em segredo
“tô” careca de saber !
42
Mil conquistas…sonhos vãos
que passaram feito a bruma.
Eu apertei tantas mãos
e não segurei nenhuma.
43
Minha alma reflete o tema
de um passarinho fujão,
vivendo o eterno dilema
entre a fome e o alçapão
44
Minhas mágoas mais secretas
em versos vou transformando.
No horizonte dos poetas
Há sempre estrelas brilhando!
45
Minha sogra é uma desgraça:
– magricela e jururu.
A coroa é mais sem graça
que rodízio de chuchu!

46
Na farra, ela se refere
às transações do marido:
– “Todo que com farra fere,
com farra será ferido!”
47
Na infância eu ia brincar
nas poças d’água, sozinho.
As poças viraram mar
e eu continuo um barquinho.
48
Não sei de temeridade
maior do que andar sozinho.
A presença da amizade
encurta qualquer caminho.
49
Nova rica não despista
a burrice que me espanta.
Diz que, sendo ecologista,
só compra casas “na planta”!
50
Numa batalha incontida
eu luto a ver se domino,
na imensa arena da vida,
os touros do meu destino!
51
Num constante caminhar,
a minha vida consiste
na procura de um lugar
que nem mesmo sei se existe!
52
Num dilema de amargura,
a Deus eu tento culpar
meu fascínio pela altura
sem asas para voar.
53
Num mau-humor quase eterno,
há quem, no viver sombrio,
faz da vida um grande inverno…
depois reclama do frio!
54
Olho o perfil da cascata
e tenho a impressão estranha
de ver um manto de prata
sobre as costas da montanha!
55
O sol, em plena alvorada,
abrindo o dia bonito,
é uma cascata dourada
jorrando luz do Infinito.
56
O toureiro Chico Louro
é chífrado onde estiver:
– Na tourada… pelo touro,
No forró… pela mulher.
57
Para manter a mensagem
daquele adeus, na partida,
eu gastei toda a coragem
que eu juntei durante a vida!
58
Para mudar a visão
de quem não muda as retinas,
Deus, em sábia decisão,
encheu as ruas de esquinas!
59
Partir… ficar… e o problema
de espinhosa solução
enlaça em nós de dilema
as cordas da indecisão !
60
Partiste… eu sonho… tu sonhas
e nós seguimos mentindo.
Nós somos dois sem-vergonhas
que vivem se despedindo!
61
Perdão eu não quis pedir
e hoje um remorso sem fim
me diz que eu deixei partir
quem era parte de mim!
62
Perder-te sem ter pedido
pelo menos um perdão
foi meu pênalti perdido
num jogo de decisão.
63
Perdoa, Pai, a oração,
se eu te peço em demasia
mas preciso, além do pão,
do sonho de cada dia.
64
Pobre horizonte pequeno
de quem crê, sem ver mais nada
que uma rosa com sereno
é só uma rosa molhada!
65
Por magia, o sonho lindo,
que me segue ao fim da estrada,
é um pombo alegre fugindo
de uma cartola surrada!
66
Por mais que a vida dê volta,
nosso carinho perdura…
que a mão do tempo não solta
as mãos dadas com ternura!
67
Por um contraste cruel,
de razões mal explicadas,
dos teus olhos cor de mel
descem lágrimas salgadas!
68
Por ver a nossa ansiedade
ao ter de nos separar,
o dilema da saudade
é saber com quem ficar.
69
Recordo o velho sobrado…
meus pais… a infância inocente…
e as essências do passado
vão perfumando o presente!…
70
Respeita as dores e anseios
na igualdade que proclamas
e vê que os dramas alheios
são dos outros… mas são dramas!
71
Saudade são velhos trapos,
pedaços do coração,
que fica feito farrapos
na cerca da solidão!
72
Se alguns sofrem se sozinhos
e outros sofrem por amar,
dilema é ter dois caminhos
e nenhum para trilhar
73
Se a oração foge da mente
no instante da dor pior,
solta um murmúrio somente…
Deus sabe as preces de cor!
74
Se a vida é mera passagem
por este plano somente,
o preço desta viagem
é a própria vida da gente
75
Selei, ao negar-te o abraço,
a minha sina de só.
A mão que desfaz um laço
nem sempre desfaz um nó!
76
Senti, no suave cheiro
que o vento me trouxe agora,
que o vento passou primeiro
pela rua onde ela mora!
77
Se os meus dias não tem tido
um colorido mais franco
é que eu sonho colorido
e conquisto em preto e branco.
78
Ser seu amigo é um valor
que para mim não compensa,
para quem deseja o amor,
a amizade é quase ofensa!.
79
Se um sonho que se esfacela
não passa de cão vadio,
a ilusão é uma cadela
eternamente no cio.
80
Sol e chuva e no horizonte,
decompondo a luz ao léu,
o arco-íris é uma ponte
no lago imenso do céu.
81
Sou gota d’água a cismar
num dilema-desafio,
entre a ventura do mar
e a segurança do rio
82
Sou no final da existência,
em meu cansaço, grisalho,
folha seca na iminência
de desprender-se do galho.
83
Tem a ventura, o estupendo
poder de nos fascinar.
e a gente a segue sabendo
que nunca vai encontrar!
84
Ter ou não ter seu amor…
Este dilema profundo
me faz o mais sofredor
dos sofredores do mundo.
85
Teu olhar tenho evitado,
pois sei que ninguém, querida,
mexe em cinzas do passado
impune às brasas da vida!
86
Trata o amor com fantasia
para fazê-lo viver;
o amor que perde a magia
tem muito pouco a perder!…
87
Vens… não vens… e na incerteza
do dilema que me cansa,
a minha vida está presa
neste fio de esperança!
88
Violando os frágeis abrigos,
a chuva lembra uma espada
cortando os sonhos mendigos
no meio da madrugada.

Relva do Egypto Rezende Silveira:

1
A bengala que rastreia
os caminhos, sem cansaços,
é feito a luz que se alteia,
guiando o cego em seus passos.
2
A brisa doce e envolvente
traz seu perfume – que incensa
a saudade – e, novamente,
eu sinto a sua presença!
3
As vagas brancas, rendadas
vêm seu bramido amainar
nas areias nacaradas,
que são molduras do mar.
4
A tempestade de areia
minha trilha não ofusca,
pois fulge a crença e norteia
os meus passos nestas busca.
5
A vigília tem seu jeito
de inquietar meu coração.
Fica ao meu lado no leito,
despertando a solidão.

6
Bendiz a lida na enxada
o lavrador quando sente
cheiro da terra molhada
fertilizando a semente.
7
Cai o idoso num tropeço,
derrubando uma guria,
depois… paga um alto preço
por uma noite de orgia.
8
Criam mentiras e ofensas
um abismo entre nós dois
que vai minar nossas crenças
num romance sem depois.
9
Das mãos de Deus vai caindo,
em forma de chuva mansa,
a bênção da água…e espargindo
as sementes da esperança.
10
Desato os nós do passado
e as tramas de um sonho eu teço:
– sonho é tear encantado
que motiva o recomeço.
11
Disse o carteiro, confuso:
– mora aqui o “seu” Leitão?
– Não mais, respondeu o luso:
virou torresmo e sabão.
12
Estás distante… a inquietude
a minha vida consome.
E, na prece, em solitude,
a ladainha é o teu nome.
13
Fecunda o ventre rosado
do amor, a fértil semente
e, a mãe, abriga um legado
que é futuro em seu presente…

14
Feito um luzeiro divino,
o mestre guia o estudante
na conquista de um destino
produtivo e fulgurante.
15
Finda o dia… A noite desce…
Tudo invade sem tardança.
Então, meu sonho adormece
à sombra de uma lembrança.
16
Homem da terra!… No entanto,
por sua sabedoria,
meu pai resplendia tanto
que se fez estrela – guia.
17
Insensatez?! Não! As horas,
no limiar do sol-pôr,
eu eternizo em auroras
nos braços do meu amor.
18
Manda notícia! É o que peço.
Basta dizeres: “Eu te amo”.
E esperarei teu regresso,
saudosa mas sem reclamo.
19
Minha vigília parece
ritual que me consome
na ladainha da prece,
digo, em delírio, teu nome.
20
Mostra o leito em desalinho
que a indiferença trocamos
pelas juras e carinho
quando o amor nós celebramos.
21
Na inspiração… devaneios,
num ritual sem esperas,
dou asas aos meus anseios,
recriando primaveras.

22
Na madrugada, em teus braços,
o nosso amor se faz pleno.
E o desejo, com seus laços,
torna este mundo pequeno.
23
Não rasgue a terra em trincheiras
onde a guerra esconde a dor.
Plante malvas nas floreiras,
componha versos de amor.
24
No alvor, o sol com magia
os véus da noite descerra.
E boceja um novo dia
junto à franja azul da serra.
25
No barco do amor navego,
sem tristezas nem cansaços,
e sou cativa – não nego,
das correntes dos teus braços!
26
No brilho do teu olhar,
a tua alma é refletida.
Nesse encanto, eu vou buscar
o norte da minha vida.
27
No instante da despedida,
o pranto contido… o adeus,
marcando por toda a vida
renúncia dos sonhos meus.
28
No seu talvez reticente,
senti acordes de adeus,
e, em farrapos, de repente,
me despi dos sonhos meus.
29
O meu peito maltratado
por um talvez sem razão
é menino de recado
que a resposta aguarda em vão.

30
Partes com indiferença
sem adeuses nem sinais
e crias barreira imensa
para abafar os meus ais.
31
Passa o tempo… E se renova
toda energia perdida:
– a melhor idade prova
que a idade é prova de vida.
32
Pescador, em travessia,
leva a fé como se fosse,
no labor do dia a dia,
o seu cantil de água doce.
33
Professor em sua trilha,
iluminando outro ser,
cultiva o dom da partilha
na partilha do saber.
34
Quando volto à antiga herdade,
ouço do passado o canto…
E, no colo da saudade,
toda notícia é acalanto…
35
Quase seco, em lodo, o rio
segue lento sem cantar:
– natureza em desafio
tentando o homem alertar.
36
Receio os falsos anelos
que deixam, sempre, o vazio:
– são quais sonhos paralelos,
margens opostas de um rio.
37
Revendo a pesada conta
que a vida me faz pagar,
a prova dos nove aponta
que eu nunca soube “somar”!

38
Roçando da noite o véu,
o tempo, que tudo invade,
desvenda aos círios do céu
mistérios da eternidade.
39
Rompeste um antigo laço
contudo, mantenho aceso
este amor que não desfaço,
mas disfarço com desprezo.
40
Se agora o tempo que resta
é pouco para nós dois,
façamos dele uma festa,
pois nada conta o depois!
41
Se a tempestade de areia
a minha visão embaça,
o lume da fé se alteia
e mostra que tudo passa!
42
Segue o amigo de verdade
ao nosso lado onde for,
ou, em forma de saudade,
no alforje do viajor!
43
Se o desejo me arrebata,
preceitos são esquecidos:
– vivo paixão insensata
na linguagem dos sentidos.
44
Se, por receio, o meu sonho
perde a magia ou a cor,
de novo, o torno risonho
por força do nosso amor!
45
Sinto a saudade roçar
o véu do tempo… E, acordado,
em sonho, vou resgatar
todo o encanto do passado.

46
Tu partiste!… E, no abandono,
perdi minha identidade,
pois nem de mim sou mais dono,
sendo escravo da saudade.
47
Véus do tempo, lentamente,
ganham a bênção contida
no brinde do sol nascente
que, em seu bojo, traz a vida.

Wanda de Paula Mourthé-MG:

1
Alegrias coleciono
neste meu tardio amor.
É na colheita do outono
que os frutos têm mais sabor.
2
Ao seu filho, desde cedo,
ministre a boa lição:
– em vez de armas de brinquedo,
ponha um livro em sua mão!
3
A realidade transponho
e vivo em mundo ideal…
Quero as mentiras do sonho,
não as da vida real!
4
Arma um barulho no “ninho”
ao ver que a cara-metade
curte um som com o vizinho
em “alta-infidelidade!”
5
– Barata em pinga?! Que horror!
E a garçonete “sensata”:
– Mas não pediu o senhor
a cachaça mais barata?
6
Bebe a sogra mais que Baco
e, tendo um gênio de cão,
consegue armar um barraco
maior que meu barracão!
7
Chega bêbado… sequer
distingue um rosto e malogra:
– dá alguns tapas na mulher
e muitos beijos na sogra!
8
De um amor que é só miragem
finjo agora ter o assédio,
para escapar da engrenagem
dessa moenda que é o tédio.
9
Disse pra linda tainha
o peixe, muito gamado:
– Casa comigo, peixinha,
que eu estou “apeixonado!”
10
Envolta em brilhos e cores,
a natureza se esmera
para, em delírio de flores,
eclodir na primavera.
11
Esta angústia indefinida,
que sempre à noite me invade,
são sombras próprias da vida
ou disfarces da saudade?
12
Eu fui náufrago da sorte
em um mar de solidão,
mas teu amor foi suporte
e tábua de salvação!
13
Forçada a escolhas na vida
– teatro que não domino
fui marionete movida
pelos cordéis do destino!
14
Gente que escolhe sem tino
as propostas da existência,
quando erra, culpa o destino
pela própria incompetência.
15
Lembranças de amor desfeito…
silêncio em horas tardias,
pois tua ausência em meu leito
dorme onde outrora dormias.
16
Meu coração se comove
por te sentir ao meu lado,
quando a saudade se move
entre as sombras do passado!…
17
Meu diário! Em tuas folhas
morrem desejos sem fim…
Pago o preço das escolhas
que outros fizeram por mim.
18
Minha insensata paixão
passou – transpondo barreiras –
das fronteiras da ilusão
para a ilusão sem fronteiras…
19
Minha madrasta é um bagulho!
No pomar, se abrir os braços,
mesmo sem fazer barulho,
vai espantar os sanhaços!
20
Minha mulher é nanica,
mas na cama é colossal:
– ronca mais do que cuíca
na terça de carnaval!…
21
Na feira de antiguidade,
ao ancião combalido
perguntam, não sem maldade:
-Vem comprar ou ser vendido?
22
Na noite do seu casório,
sendo um noivo muito antigo,
usou até suspensório,
mas não sustentou o artigo…
23
Não importam a censura
e o louvor da sociedade:
– procuro viver à altura
da minha própria verdade!
24
Não prometo, em nossa história,
meu amor por toda a vida,
porque a vida é transitória,
e meu amor, sem medida!…
25
No lento passar das horas,
em insônia e devaneio,
contei inúteis auroras,
à espera de quem não veio.
26
O casca-grossa sincero
pede a mão da moça aos pais:
– Da sua filha eu espero
ter a mão e tudo mais…
27
O destino traiçoeiro
separou-nos, sem piedade,
mas o amor fez do carteiro
o porta-voz da saudade.
28
Olho a rua… a noite avança,
tudo adormece ao luar…
Dorme até minha esperança,
pois cansou de te esperar!
29
– O meu marido é carteiro;
porém bem cedo aprendeu
que, no lar, o tempo inteiro,
quem dá as cartas sou eu!
22
Na noite do seu casório,
sendo um noivo muito antigo,
usou até suspensório,
mas não sustentou o artigo…
23
Não importam a censura
e o louvor da sociedade:
– procuro viver à altura
da minha própria verdade!
24
Não prometo, em nossa história,
meu amor por toda a vida,
porque a vida é transitória,
e meu amor, sem medida!…
25
No lento passar das horas,
em insônia e devaneio,
contei inúteis auroras,
à espera de quem não veio.
26
O casca-grossa sincero
pede a mão da moça aos pais:
– Da sua filha eu espero
ter a mão e tudo mais…
27
O destino traiçoeiro
separou-nos, sem piedade,
mas o amor fez do carteiro
o porta-voz da saudade.
28
Olho a rua… a noite avança,
tudo adormece ao luar…
Dorme até minha esperança,
pois cansou de te esperar!
29
– O meu marido é carteiro;
porém bem cedo aprendeu
que, no lar, o tempo inteiro,
quem dá as cartas sou eu!
38
Se a voz do orgulho me impele,
sempre, a esquecê-lo de vez,
a paixão, à flor da pele,
impõe silêncio à altivez.
39
Sem oásis, retirante,
na aridez do teu sertão,
única sombra flagrante
é tua sombra no chão.
40
Tanto amor e afinidade
entre nós dois, já se vê,
que perdi a identidade:
– eu sou eu… ou sou você?
41
Tua partida me fala
do teu desprezo… um açoite!
E a saudade não se cala
nem na calada da noite…
42
Uma estrela cintilante,
os Reis, a Belém conduz.
Maria, mais fulgurante,
deu à luz… a própria Luz!
43
Volto à capela em que, um dia
me esperaste ao pé do altar…
E hoje a saudade, em magia,
me espera no teu lugar…

Luiz Carlos Abritta-MG:

1
As tuas mãos – que brancura
-que bonito de se ver,
pois elas têm a ternura
dos lírios do amanhecer.
2
Aos jovens dou um conselho,
nesta vida tão incerta:
– não se olhem tanto no espelho
pois Narciso é morte certa!
3
Ao teu prazer eu me entrego
– seja lá o que quiseres –
pois te escolhi, eu não nego,
entre todas as mulheres.
4
Casaste. Triste eu sofria,
pois vestiste, bem contente,
a camisola macia
que eu te dera de presente!
5
Com seu amor eu me aqueço
e sempre me recomponho;
só por isso eu lhe ofereço
a vigília do meu sonho.
6
Desde que tu foste embora,
tua saudade é açoite
que já começa na aurora
e dói mais durante a noite !
7
Dessa forma Cristo pensa:
“maior será o perdão
quanto maior for a ofensa”.
– Que bela e sábia lição!!
8
De todo “não” que me deste,
o que mais triste me fez
foi aquele que disseste
disfarçado num “talvez”.
9
Do meu verso é sempre a fonte
essa cidade lendária
chamada Belo Horizonte,
a Capital centenária!
10
Do simples pó eu procedo,
sei que a ele hei de voltar;
a vida não tem segredo:
– é um eterno retornar.
11
Em cada nota eu receio,
na pauta que a vida escreve,
que transformem nosso enleio
numa simples semibreve
12
É muito estranho, meu bem,
o relógio do destino:
– vai de manso, vai e vem,
depois bate em desatino !
13
Essa vitória alcançada
nos obriga a meditar:
– sem o povo não há nada,
que verdade singular!
14
Eu bem sei que tu me esperas
e, se te vejo, ao sol-posto,
projeto um céu de quimeras
na moldura do teu rosto !
15
Eu confesso abertamente,
e disso não me envergonho,
que tu foste, simplesmente,
o amplo portal do meu sonho.
16
Eu sei que o belo e a verdade
caminham juntos na vida
e atinjo a felicidade
se a ternura é dividida.
17
Eu te amo tanto, mas tanto
que já pus num pedestal
toda a glória desse encanto,
que se tornou imortal.
18
Eu te digo, com alegria,
e a realidade comprova
que o melhor da poesia
é a beleza de uma trova.
19
Eu tenho perseverança
e à tristeza me anteponho:
– garimpeiro da esperança,
sempre vivi do meu sonho.
20
Jamais eu temo o fracasso
pois me deste o teu amor
e a simples força do abraço
me transforma em vencedor!
21
Não me queres…pouco importa.
Só penso no amanhecer,
pois ele sempre abre a porta
à sedução de viver !
22
Na magia desse sonho,
nessa noite calma e pura,
a sonata que componho
tem as notas da ternura.
23
Na tessitura do sonho,
vou cortar, sem mais tardança,
esse nó górdio que imponho
a um amor sem esperança.
24
Navegador solitário,
singrando as águas do mar,
jamais pensa em numerário,
mas conjuga o verbo amar !
25
Nem o sofista profundo
esta verdade falseia:
quem se julga rei do mundo
é um pequeno grão de areia!
26
Nenhum amor se constrói
só com flores e ternura,
pois aquele que mais dói
certamente é o que mais dura.
27
Nesse exílio que me imponho,
não senti que era miragem
e dos pedaços de sonho
eu recompus tua imagem.
28
Nosso amor já teve história
e, por isso, eu te proponho
seja posto na memória
do relicário do sonho.
29
Novo estatuto vigora
nas leis do amor hoje em dia:
– sei que vale mais o agora
do que a mais bela utopia!
30
Numa alquimia de nume,
à tristeza me anteponho,
transformando teu perfume
no perfume do meu sonho!
31
O açougueiro viu passando
a mulher que é só pele e osso
e disse, a faca afiando:
“Isso é carne de pescoço”.
32
Olhando o tempo passar,
no relógio da memória,
eu senti coisa invulgar,
pois revivi nossa história!
33
O que conta nessa vida
não é tempo nem idade,
mas a procura renhida
da deusa felicidade.
34
Passa o tempo num instante
e dele jamais se esquece,
pois fica sempre o importante:
– o velho amor permanece.
35
Quando o cãozinho e o menino
se abraçam por um segundo,
solto o canto peregrino:
– Há salvação para o mundo!
36
Quis esquecer-te…não pude:
a saudade é traiçoeira
e ela sempre nos ilude,
pois nos prende a vida inteira !
37
Quis retratar um romance
que fosse mesmo um primor,
e fiz, com tinta e nuance,
uma aquarela de amor.
38
Sempre foste minha amada
e, no doce cativeiro,
sem algema e sem mais nada,
tu me prendes por inteiro.
39
Se navegar é preciso
e viver nem tanto assim,
vou partir com teu sorriso,
em busca do mar sem fim!
40
Se todos temos defeitos,
se o mistério vem de Deus,
se nem os bons são perfeitos,
o que dizer dos ateus?
41
Somos poeira que a vida
sempre leva de roldão;
em sua sanha atrevida,
ela não vê coração
42
Só se louva a juventude,
porém jamais alguém disse
que só se atinge a virtude
quando se alcança a velhice
43
Todos querem sufocar,
com disfarces atrevidos,
e sordidez invulgar,
o grito dos excluídos .
44
Tudo ele faz com amor
e traz o céu na bagagem;
na verdade, o trovador
de Deus na Terra é a imagem
45
Tu partiste… e essa magia
que deixaste no meu peito
vai fazer que certo dia
tu voltes de qualquer jeito.
46
Vejo o mar em ondas mansas
– foto de rara beleza –
e, reforçando as lembranças,
um céu chamado Veneza !
47
“Veredas, grandes sertões”…
a nossa vida é uma estrada
toda cheia de senões,
do início ao fim da jornada.
48
Vou definir a saudade
e não sei se estarei certo:
– saudade é aquela vontade
de que o longe fique perto.

Maria da Conceição Antunes Parreiras Abritta

1
Aarão Reis te fez surgir,
teus filhos te deram glória,
Belo Horizonte, és porvir
dos cem anos de uma história.
2
A brisa passou cantando,
e trouxe, com seus enleios,
teu rosto, em sonho, singrando
as águas dos meus anseios.
3
A cara de Sá Constança
é de osso e pele somente,
mas tem ela uma poupança
tão gorda que assusta a gente.
4
A cortina solta ao vento
dança, insone, o seu bailado:
– revolve o velho aposento
e os segredos do passado.
5
A gata ruiva e bonita
passa toda rebolando;
o garotão logo grita:
– tem “filet mignon” sobrando!…
6
A vida me revigora,
lembranças que tanto amei!
E dos sonhos, junto, agora,
os retalhos que guardei.
7
Belô, mais bela e altaneira,
em teus cem anos de glória,
és rainha e timoneira
de teu povo e de uma história.
8
Canto, alegre, a fortaleza
que sempre cobriu meus passos,
porém escondo a fraqueza
de não contar meus fracassos.
9
Chuva fina nas calçadas
vai regando a minha dor,
que cresce nas madrugadas,
distante do meu amor.
10
Com juras apaixonadas,
compondo sonhos a dois,
brindamos às madrugadas,
num talvez… que vem depois.
11
Em nossos dedos, ternura,
lindo troféu de esplendor;
anel que tem espessura
e o brilho do nosso amor.
12
Entre as dunas da lembrança
a saudade, em fantasias,
deixa areia de esperança
no deserto de meus dias.
13
Entre colinas reinando,
Belô, és sonho encantado:
– mulher bonita enfeitando
cem anos de teu passado!
14
Foi tão lindo o sentimento
que nos uniu, sem apelos,
que o luar brindando o evento
prateou nossos cabelos.
15
Hoje a vitória te alcança!
Cuidado, ao virar a mesa,
a vida é imensa cobrança,
num mercado de surpresa.
16
Já nasceste Capital,
traçada em retas iguais;
hoje és linda e magistral,
centenária das Gerais.
17
Lá no alto, bem escondido,
no velho tronco que o enlaça,
um coração esculpido
veste a ramagem da praça.
18
Manhã dourada, sol quente,
nós dois e o sonho que aflora.
Deitados na areia ardente…
Só o amor importa agora!
19
Marido a deixa sozinha…
E, com medo de ladrão,
a beldade da vizinha
chama o gato do patrão.
20
Na balança deste mundo,
pesa mais que seu talento,
ser honesto, ser profundo,
ser direito em pensamento.
21
Na madrugada vazia,
quando o desprezo me invade,
teu desprezo me angustia
num resquício de saudade.
22
Não desanime, trabalhe,
combata o mal, queira o bem…
Pois o bom, mesmo que falhe,
é sempre luz para alguém!
23
Nesta aflição que me cansa,
distante de teu amor,
com timidez, a esperança
tenta acalmar minha dor.
24
Nunca, em tardes de sol-posto,
eu me ponho esmorecida;
rasgo o véu do meu desgosto
e brindo ao sabor da vida!
25
O luar flertando a areia,
cai do céu feliz, por certo,
enamorado vagueia,
cobrindo em prata o deserto.
26
O luar, olhando a areia,
cai do céu, quase desmaia;
em vigília ele vagueia
cobrindo de prata a praia.
27
O tempo não mede espaços,
passa em corrida fatal,
e o trovador, em seus passos,
nunca passa, é um imortal.
28
Passa a noite… raia a aurora…
Só pensamento enfadonho;
o teu desprezo se ancora
na solidão do meu sonho.
29
Recordam tempos passados,
toda magia e ternura,
nossos sonhos enlaçados
no retrato na moldura.
30
Se o seu horizonte brilha,
não se esqueça do irmão pobre,
veja que, na mesma trilha,
passa o humilde e passa o nobre.
31
Sob a névoa, sem ruído,
juntei meu sonho aos pedaços:
– no véu do tempo, esmaecido,
senti-me presa em teus braços.
32
Tive alegrias e penas,
vi noites e amanhecer,
fui palco de muitas cenas,
na conquista do viver.
33
Transformei em lindo adorno
os ritos do meu sonhar…
Andei, vaguei sem retorno,
me acampei no teu olhar.
34
Um manto em prata orvalhada
acobertou com pudor,
o nascer da madrugada
no seio de nosso amor.

Eduardo Amaral de Oliveira Toledo-MG:

1
Acalme a ira em seu sangue
e as injustiças suporte,
pois a ofensa é um bumerangue
que sempre volta mais forte!
2
A fé, de crenças tamanhas,
é um rio largo e bendito
que vai transpondo montanhas
e deságua no infinito!
3
Ainda vejo da varanda,
em frente à Igreja Matriz,
o meu pai regendo a banda
e a praça inteira feliz!
4
A mentira mais fingida
que aprendi, quando criança,
foi ouvir que pela vida
quem espera sempre alcança.
5
Ao devolver minhas cartas,
o carteiro nem sabia
que, além de saudades fartas,
os meus sonhos devolvia!
6
A saudade se embaraça
e a paixão se intensifica…
– Não pelo instante que passa,
mas pelo instante que fica!
7
A vingança não me agride,
pois tenho de prontidão
as armas para o revide:
– o entendimento e o perdão!
8
Bate a neblina… Em meu quarto,
na solidão que me invade,
a saudade inventa um parto…
e nasce uma outra saudade!
9
Corroendo o coração
e a cabeça endoidecendo,
o ciúme é a sensação
do que se vê… não se vendo!
10
Durmo tranquila e feliz
na madrugada sem lei,
quando meu filho entra e diz:
– A bênção, mãe, eu cheguei!!!
11
Em minha filosofia
o amor é um barco ao relento:
– soberbo na calmaria…
– e incauto à fúria do vento!!!
12
Em pouco mais que um segundo,
e sem quaisquer cantilenas,
a trova canta este mundo
em quatro versos apenas!
13
Meu pai, que venero tanto,
e não sai dos sonhos meus,
foi muito mais do que um santo,
foi cá na Terra o meu Deus!
14
Minha assanhada vizinha,
enrugada e sem calor,
parece um velho “fusquinha”
já “rateando” o motor.
15
Minhas saudades, no estágio
de tantos sonhos em vão,
até hoje pagam ágio
no guichê da solidão!
16
Não te rendas nunca à dor,
se o teu bem tem rumo incerto,
pois, muitas vezes, no amor,
esse longe é muito perto!
17
Na viagem da ilusão,
pela tarde azul e morna,
vivo a esperar na estação
um trem que nunca retorna!
18
Neném… Zé Gordo… Tuinha…
Zeca saci… (Que distância!)
– Cadê a turma que eu tinha
na rua da minha infância”?
19
No engenho do desencanto
vou moendo a soledade
e destilando o meu pranto
no alambique da saudade!
20
No leilão do teu amor,
se a prenda for um romance,
eu pago qualquer penhor
e cubro o último lance!
21
No trem da vida prossigo
e, à luz da terceira idade,
eu vou levando comigo
um vagão só de saudade!
22
No verão, alguns maridos
caem nos blocos da cidade…
Pintam lábios, põem vestidos
e assumem a outra metade!
23
O homem conquista e arrebanha
mais altura e põe-se em pé,
quando desce da “montanha”
e professa a sua fé!!!
24
O inverno fecunda o chão
com sêmens de orvalho e espera
as flores que brotarão
do ventre da primavera!
25
O medo que me intimida,
ante o terror e o poder,
é o medo da própria vida
que não se pode viver.
26
O meu sonho misantropo,
deslizando na subida,
até hoje busca o topo
do pau-de-sebo da vida!
27
O nosso amor, cuja essência
é uma volúpia banal,
parece até reticência
com ar de ponto final!
28
“O que é o amor’?” me perguntas,
e, em coro, os anjos entoam:
– “são duas pessoas juntas
que se amam e se perdoam!”
29
Os meus sonhos vão ao léu,
pelas asas da ilusão…
– Plantando flores no céu…
– Colhendo estrelas no chão!
30
O sonho que me incendeia
à luz da terceira idade
parece uma lua cheia
no infinito da saudade!
31
Por mais que eu galgue as montanhas
dos sonhos, dos ideais,
vem uma voz das entranhas
e me ordena: – “Suba mais”!!!
32
Por ser caboclo do mato,
de capina a vida inteira,
meu mundo tem o formato
de uma roça sem fronteira!
33
Recordações na parede,
cacos de sonhos no chão
e o passado, numa rede,
embalando a solidão!
34
Sua história… seus desterros…
Minas, de formas Gerais,
apesar de muitos erros
nos deu acertos demais!
35
Tendo a paixão como escolta
e o coração em sentido,
saudade é um sonho que volta,
sem que nunca tenha ido!
36
Um aroma diferente
envolve a terceira idade:
– é quando o olfato da gente
sente o cheiro da saudade!
37
Vaga o meu sonho ao luar
num dilema permanente:
– se pesca a estrela-do-mar…
– se colhe a estrela cadente!!!

Heloísa Zanconato Pinto-MG:

1
A centelha do ciúme
transformou-se em fogaréu.
Queimou-me o peito… E seu lume
pôs o inferno onde era o céu!
2
A lei da vida nos diz
que, entre o instinto e a prudência,
é sempre o melhor juiz,
nossa própria consciência!
3
A ofensa mais dolorida,
que à humilhação se compara,
é quando a mão estendida
leva uma “porta na cara”!
4
Ao ler o verso perfeito
que algum poeta escreveu,
brota-me o ousado direito
de achar que a Musa fui eu!!
5
Após o parto, o marido
vendo o nariz da criança,
saiu buscando, ofendido,
um turco na vizinhança!
6
A saudade me garante,
já que a tristeza persiste,
que eu devo, de agora em diante,
me acostumar a ser triste!
7
A tristeza mais pungente…
aquela que ninguém vê,
é a que dói dentro da gente
e a gente sabe por quê!
8
Ciúme – diz o ditado
é o tempero do amor.
Mas, se não for bem dosado
toma indigesto o sabor!
9
Dando, à solidão, guarida,
na amplidão de seus portais,
as noites de minha vida
ficaram longas demais!!!
10
É meio a meio, eu garanto,
a culpa de meus pecados,
pois só deixei de ser santo
quando aceitei seus agrados!
11
Eu não sou Mago, nem Santo,
mas na magia do amor
hei de quebrar teu encanto;
fazer-te escrava… e, eu, Senhor!
12
Feito a chama de uma vela
que se esvai no alvorecer,
qualquer poder se esfacela
ante o Supremo Poder! …
13
Gente existe em que o entalho
de um visual elegante
apenas lustra o cascalho
mas não o torna um brilhante!
14
Magoei afetos, trilhando
rumos, os mais incorretos…
E agora pago, penando
nas garras dos desafetos!
15
“Meu bem – indaga o marido –
o que é brega…que eu não sei?”
“É aquela saia, querido,
que me deste e eu nunca usei!”
16
Não busque ocultar os traços
do amor, com farsa nenhuma…
Se me prefere em seus braços,
tire o disfarce… e me assuma!
17
Na solidão que, hoje resta,
em meio à casa vazia,
eu bebo as sobras da festa
que nós tivemos um dia!
18
Na vida, faço e desfaço
duras laçadas sem medo,
porque no ajuste do laço
é Deus quem me empresta o dedo!
19
No ardor com que me devora,
esse amor, sinto, afinal,
que se foi delírio outrora…
hoje, é loucura total!!!…
20
Nosso conflito, suponho,
deu-se em razão de um defeito:
– coração, é que o teu sonho
era maior que o meu peito!
21
O afeto mais eloquente
que a vida nos pode dar
é o que expressa a mãe da gente,
numa canção de ninar!
22
O ciumento: – Não, senhora,
nada de roupa moderna!
Quer pôr barriga de fora?
Ponha a barriga da perna!
23
O Destino se afigura
aquela torre elevada
que oferta o gozo da altura
pelo suplício da escada!…
24
O nosso amor clandestino,
vivendo à mercê da sorte,
viaja pelo Destino
sem carimbar passaporte!…
25
O solitário modera
seus passos no viajar.
Quem não tem ninguém à espera,
não tem pressa de chegar!…
26
Padece a Nação inteira
e explodem forças armadas,
quando a Sorte põe, arteira,
o poder em mãos erradas! …
27
Para inseri-la entre as flores,
Deus, empunhando a paleta,
pintou um mundo de cores
nas asas da borboleta!…
28
Parece que um anjo arruma,
no céu, a luz das estrelas:
de dia, apaga uma a uma…
E à noite, torna a acendê-las!
29
Porque, sempre, nas vitórias,
logrei o apoio de alguém,
eu reparto as minhas glórias
com meus amigos também!
30
Qual seria o saldo bruto
da nossa conta corrente,
se Deus cobrasse tributo
pelas fraquezas da gente?!
31
Quando ao amor te recusas,
a inspiração não acordas…
Porque poetas sem musas
lembram violas sem cordas!
32
Quando a sorte traiçoeira
cresta o fogo da ilusão,
volto a ser a Borralheira
entre as cinzas do fogão!
33
Quando, formal, eu te abraço,
tu nem percebes, suponho,
o quanto eu sinto que enlaço
a forma viva de um sonho!
34
Se ao romance eu me refiro,
a moçada de hoje em dia
me responde que suspiro
se encontra… em Confeitaria!
35
Seja cobrado… ou de graça,
num paradoxo profundo,
por melhor que algo se faça,
não se agrada a todo mundo!
36
Sendo esquelético, feio,
ao cemitério não vai,
pelo devido receio
de que se entra… não sai!
37
– Se um dia eu virar defunto,
vou ser na rede, enterrado.
– Que melhor caixão, pergunto,
pra quem viveu “pendurado”?…
38
Sol a pino, castigando…
Terra seca do sertão!
E o nordestino chorando…
Só seu pranto molha o chão!
39
Tu és a chuva voltando
após os meses de estio…
E eu, o rio te esperando
naquele leito vazio!
40
Unem-se povos irmãos
num gesto nobre e fecundo,
cuja corrente de mãos
faz-se o suporte do Mundo!
41
Vai à luta enquanto é cedo
que amanhã já será tarde
e, da semente do medo,
terá nascido um covarde!
42
Vendo chegar a saudade
que a tua ausência me trouxe,
mesmo não sendo verdade,
gravei na porta: – MUDOU-SE!