Trovadores Rio Grande Norte

José Lucas de Barros-RN:

1
A ciência, sem suspeita,
será no mundo aplaudida
se a clonagem só for feita
em benefício da vida.
2
A esmola às vezes se “enfeita”
com tinturas de vaidade,
mas a caridade é feita
de amor e fraternidade.
3
A liberdade é um tesouro
da mais alta qualidade…
Nem por gaiola de ouro
há quem troque a liberdade!
4
A menina seminua,
presa, ao detetive:
– eu não me queixo da rua,
mas do lar que nunca tive!
5
A mulher, rasgando os passos,
caminha alegre, vai cedo…
Quem leva um filho nos braços
enfrenta o mundo sem medo.
6
A multidão me põe louco
entre empurrões e zoada…
Sozinho, sou muito pouco;
na multidão, não sou nada!
7
Antes de sair de cena,
peço tempo aos céus risonhos,
pois acho a vida pequena
para a vida de meus sonhos.
8
Ao voltar, com muito amor,
ao campo que já foi meu,
bebi no cálix da flor
o mel que a abelha esqueceu.
9
A poesia se ilumina
e em trono de amor repousa,
pela pureza divina
dos versos de Auta de Souza.
10
A preguiça dos ponteiros
de meu velho carrilhão
mostra os minutos ronceiros
das noites de solidão!
11
Aquele singelo enredo
de amor, ensaiado a sós,
foi o mais belo segredo
que a vida pôs entre nós!
12
Auta pôs, com mãos de fada,
em versos de encanto e dor,
toda a pureza filtrada
na luz eterna do amor.
13
Carcará desce do pico,
pega a vítima e condena,
pois, sendo de pena e bico,
bica e mata sem ter pena.
14
Chove no Sertão, e o rio
desce da serra distante;
devolve a vida ao baixio
e o sorriso ao retirante!
15
Com devotamento ao lar,
onde o amor finca raízes,
a noite é para sonhar
e os dias são mais felizes.
16
Como é belo ver a planta
que abre flores nos caminhos,
nas horas em que Deus canta
pela voz dos passarinhos!
17
Como os demais trovadores,
tenho ilusões,toda hora…
São lindas, parecem flores,
mas, num sopro, vão embora!
18
Corre o viver tão bonito,
nesta paz de vento brando,
que eu vejo e não acredito
que a velhice está chegando!
19
Crianças em doce anelo,
fitando, além, o horizonte,
sonham que um dia mais belo
vai nascer por trás do monte!
20
De alguém que há pouco passou,
deixando a porta entreaberta,
alguma coisa ficou:
– talvez a lembrança incerta!
21
Deus, que viagem florida,
em campos tão sedutores!
Como é bom trilhar, na vida,
pelo caminho das flores!
22
Duas taças num banquinho,
sem ninguém, têm a igualdade
do cheiro do mesmo vinho,
da dor da mesma saudade!
23
Em louco e brutal delírio
pra devastar o que resta,
a motosserra é um martírio
no calvário da floresta!
24
Em manhã chuvosa, a vida
canta no seio da mata
e há notas de água caída
no piano da cascata.
25
Em minha infância inocente,
teu afeto, mãe querida,
desenhou-me fielmente
o lado belo da vida!
26
Em momentos mais risonhos,
sei que já fiz trova linda,
mas a trova dos meus sonhos
não pude fazer ainda!
27
Em muitas ocasiões,
só somos bons elementos
porque certas intenções
não passam de pensamentos.
28
Enquanto a emoção se alteia
sobre as dunas, a rolar,
a vida brinca na areia
ouvindo a canção do mar.
29
Entre o cãozinho e a criança
há tão lindo entendimento,
que na estrada da esperança
há, para os dois, um assento!
30
Esta fé que nos norteia
para a “terra prometida”,
mesmo sendo um grão de areia,
faz o alicerce da vida!
31
Estas cenas nos comovem,
como, na rua, alguém disse:
– Juntas, a energia jovem
e a lentidão da velhice!
32
Eu sou mais poeta quando,
no jogo de altas marés,
fico na praia esperando
que as ondas lavem meus pés.
33
Feitas de sonhos e flores,
as nossas trovas são ninhos,
onde os vates trovadores
trinam como passarinhos.
34
Felicidade é o lugar
indicado pelo amor…
Lá, quem consegue chegar
é, por certo, um sonhador!
35
Há tempo sem teus afagos,
deixa-me lavar as dores
nos dois pequeninos lagos
de teus olhos sedutores!
36
João Maria, em nenhum canto
deixava um mendigo ao léu…
Na terra já era um santo;
foi ser mais santo no céu.
37
João Maria morreu quando
fazia um trabalho lindo.
Sua alma subiu cantando;
Deus o recebeu sorrindo!
38
Mais vale da vida o espelho
que muitos sermões no templo…
Em vez de nos dar conselho,
seu padre, nos dê o exemplo!
39
Mesmo enfermo, João Maria,
cumprindo a santa missão,
a própria dor esquecia
pra sanar a dor do irmão!
40
Mesmo que eu mude de estilo,
não mudarei, nem de leve,
uma vírgula daquilo
que a mão do destino escreve.
41
Mesmo que eu renove as trilhas,
desviando a caminhada,
não escapo às armadilhas
que o destino põe na estrada.
42
Meu querido Rio Grande,
na beleza de teus vales,
desfeito em trovas se expande
o amor do “Trio Canalles”.
43
Meu rancho, no campo em flor,
longe de intriga e maldade,
era o meu ninho de amor,
hoje é o ninho da saudade!
44
Minha mulher reza tanto
aos pés de Nosso Senhor,
que eu vou precisar ser santo
pra merecer seu amor.
45
Musas divinas!… Ao vê-las,
no sonho que me seduz,
subo ao ninho das estrelas,
seguindo os rastros da luz!
46
Não há coisa mais bonita
neste mundo de pecado,
do que a fé que ressuscita
um sonho já sepultado!
47
Não me fizeste justiça
ao negar-me o teu carinho,
e hoje a saudade aterrissa,
como sombra, em meu caminho!
48
Não temo a longevidade
por esta simples razão:
– a flor da felicidade
brota em qualquer estação.
49
Na paz da boa atitude
não há passada perdida,
e a moeda da virtude
paga o pedágio da vida.
50
Na paz de um lago deserto,
longe da luz da cidade,
foi quando estive mais perto
da luz da felicidade.
51
No doce embalo da rede,
um sono bom me enfeitiça
e o relógio de parede
me acompanha na preguiça.
52
No instante em que o sol
se enfada, de tanto aquecer
a Terra, deita a cabeça dourada
no travesseiro da serra…
53
No meu rancho, pobre teto,
o chão era a cama e a mesa,
mas fui tão rico de afeto,
que nem falava em pobreza.
54
No trabalho, meus irmãos
não buscam prêmio nem glória,
e os calos de suas mãos
enobrecem nossa História.
55
Numa devoção de monge,
o Potengi, sem parar,
traz água doce de longe
e entrega de graça ao mar.
56
Numa fonte de águas claras,
Onde as musas cantam hinos,
Bebo as imagens mais raras
De meus versos peregrinos.
57
O alpinismo é dura prova
que não ficou para mim,
mas, no alpinismo da trova,
escalo alturas sem fim.
58
O amor e o sonho, querida,
são graças que Deus nos deu…
Quem não ama não tem vida,
quem não sonha já morreu.
59
O beijo, em qualquer instante,
estimula o amor e a vida,
e, sendo um beijo dançante,
faz tudo além da medida.
60
O cego, com dedos certos,
tange a sanfona dorida,
e eu, com dois olhos abertos,
erro nas teclas da vida.
61
O céu azul de meus sonhos
e as flores da mocidade
lembram-me dias risonhos
na aquarela da saudade!
62
O destino abre-me os braços
mas tem seu lado mesquinho:
– guia-me todos os passos
mas não me ensina o caminho.
63 –
Oh! Que demora sem fim
para tua decisão!
Chegou tão tarde o teu sim,
que já parecia um não!
64
Olhando o primor da teia,
eu fico aos céus inquirindo:
– como é que a aranha, tão feia,
traça um desenho tão lindo!
65
Olho o céu de eterno azul,
e como fico feliz,
vendo o Cruzeiro do Sul,
emblema de meu país!
66
O meu destino de amor
me pôs no rol dos felizes:
– fez-me nascer trovador
no mais belo dos países.
67
O perdão é que é o sinal
de perfeita lucidez…
Quem se vinga faz o mal
do jeito que alguém lhe fez.
68
O Potengi deita a luz
no seu leito sedutor
e, ao tê-la formosa e nua,
mergulha em sonhos de amor.
69
Os anos trazem cansaços;
nossa vida é sempre assim,
e a saudade segue os passos
da velhice, até o fim!
70
O trabalho é luta santa
que não vislumbra medalha,
e um país só se levanta
pelas mãos de quem trabalha.
71
O trabalho me norteia
e dele eu não me despeço,
pois quero meu grão de areia
a construção do progresso.
72
Para abraçar-te, menina,
meu anseio é tão profundo,
que a distância de uma esquina
parece uma volta ao mundo.
73
Pobre casal foi multado
sem defesa, na avenida,
por beijo estacionado
numa faixa proibida!
74
Por mais que a vida me açoite
com refinada ironia,
depois da prece da noite,
esqueço as mágoas do dia!
75
Potengi, corrente amiga
que alimenta o manguezal,
artéria grossa que irriga
o coração de Natal.
76
Qual a fonte de energia
Da luz de tantas estrelas?
Se não for Deus, quem teria
Um facho para acendê-las?
77
Quando a jangada flutua
sobre as águas, ao luar,
é uma lágrima da lua
nos olhos verdes do mar.
78
Quando a Lua se retrata
com seu encanto invulgar,
traça um caminho de prata
sobre a esmeralda do mar.
79
Quando estou em meu terraço,
olhando os astros risonhos,
a Lua atravessa o espaço,
puxando o carro dos sonhos!
80
Quando eu vejo a morte acesa
na fúria de uma queimada,
sinto a dor da natureza,
impunemente afrontada!
81
Quando o tempo se levanta
no sertão, e a seca vem,
não morre somente a planta,
morre a esperança também!
82
Quanta labuta perdida
para a clonagem de gente,
quando o amor que traz a vida
jorra de infinda vertente!
83
Queimada!… A terra ferida
clama por um povo forte
que faça brotar a vida
onde o fogo impôs a morte!
84
Quem fere, seja onde for,
uma simples borboleta,
mata um sonho multicor
que sobrevoa o planeta!
85
Se a lua beija as areias
destas praias de Poti,
cantam todas as sereias
das noites do Potengi.
86
Se aos pintores falta tinta
que eternize a juventude,
feliz quem, na vida, pinta
um retrato da virtude!
87
Sei que deste mundo lindo
vou sair, só não sei quando,
mas quero morrer dormindo
para entrar no céu sonhando.
88
Se já não restam viventes
sobre a terra calcinada,
plantemos novas sementes
na cicatriz da queimada!
89
Se meu Potengi não fosse
perene, iria esgotar
de despejar água doce
no fundo amargo do mar.
90
Sem ter o clone a beleza
do amor que embala os casais,
torce as leis da natureza
e engendra seres sem pais!
91
Sem ter da mulher o afeto,
não tenho felicidade.
Homem nenhum é completo
quando lhe falta a metade.
92
Senti o ardor da poesia
nos meus primeiros amores,
quando a vida parecia
uma cascata de flores!
93
Sinal da antiga aliança
de Deus com a humanidade,
o arco-íris nos traz bonança
de paz e felicidade.
94
Toda a natureza é um plano
de vida farta e beleza,
mas o lucro desumano
põe no bolso a natureza!
95
Tomara que os trovadores
batam do verso a poeira,
e a trova, assim como as flores,
enfeite as bancas da feira.
96
Tua voz, terna e macia,
sob o calor dos lençóis,
tinha a doce melodia
de um canto de rouxinóis.
97
Viram cinza os verdes braços
de árvores tão bem formadas
e a terra morre aos pedaços
por onde vão as queimadas!
98
Volta aos sonhos de criança,
em teu recanto singelo,
mas nutre a flor da esperança
que torna o mundo mais belo!
99
Vou brincar com pirilampos
e beijar as flores nuas
pra ver se encontro nos campos
a paz que fugiu das ruas!
100
Zarpei ao romper do dia,
no meu barco, a velejar,
para “pescar” a poesia
que a Lua escondeu no mar.

Prof. Francisco Garcia-RN:

1
A dor que se intensifica
e amedronta os dias meus,
é pensar na dor que fica
depois da palavra adeus!
2
A estrela da mocidade,
que em minha infância brilhou;
brilha em meu céu de saudade,
depois que a infância passou!
3
A existência é dividida
em dois extremos da idade:
– um, alvorada da vida,
outro, arrebol de saudade!
4
A insensatez, na verdade,
separou nossos lençóis;
e agora a dor da saudade
dói muito mais entre nós!
5
A liberdade do poeta,
está num verso… Num grito…
No equilíbrio se completa,
vencendo o próprio infinito!
6
Amores na mocidade!…
Depois, a contrapartida:
cansaço, dor e saudade
na curva extrema da vida!
7
A musa chega e me inspira,
num delírio encantador…
Afina as cordas da lira
e enche o meu mundo de amor!
8
Antes que a aurora desponte
dando vida à luz do dia,
tenho que cruzar a ponte
nos braços da poesia.
9
A poesia se engalana,
mas só se torna completa,
quando se faz soberana
na voz do próprio poeta!
10
As cordas desafinadas
e esta voz chegando ao fim!…
São mimos das madrugadas
guardados dentro de mim!
11
A solidão me angustia
e à noite aumenta o meu drama,
vendo a cadeira vazia
que a tua ausência reclama!
12
Às vezes, me falta estima,
vendo a multidão que passa…
Muita gente se aproxima,
mas pouca gente se abraça!
13
A terra inteira secou!…
E, a dor me fez sofrer tanto,
que quando a chuva voltou,
tinha secado o meu pranto!
14
Busquei no universo um dia,
uma resposta eficaz;
que transformasse a POESIA
num hino de amor e paz!!!
15
Cada tropeço me ensina
que a vida é eterno sonhar.
Na vida nada termina,
muda de forma e lugar.
16
Cadeira velha!…Esquecida,
sem dono e sem mais ninguém…
Só a saudade atrevida
reclama a ausência de alguém!
17
Cascata, teu pranto triste,
parece que não tem fim!…
Comparo ao pranto que existe
doendo dentro de mim!
18
Como quem faz uma prece,
braços erguidos se abrindo,
a borboleta parece
um anjo da paz dormindo!
19
Dai-nos ó, Pai, a razão,
desta santa imagem tua…
e que eu reparta o meu pão,
com quem não tem pão na rua!!!
20
Desperto e fico tristonho,
é triste o meu despertar,
ver acabado o meu sonho
antes do sonho acabar!
21
Deus – pintor da natureza,
usando a tinta mais viva:
– pinta o céu, de azul-turquesa
e os mares, de verde-oliva!
22
De volta ao lar que eu não via,
desde a minha mocidade…
Enquanto a emoção crescia,
crescia a dor da saudade!
23
Distante dos teus afagos,
nesta inquieta nostalgia,
meus olhos formam dois lagos
que me afogam todo dia!
24
Do sino, ouvindo a amargura,
da tarde que já morria,
fiz da triste partitura
a mais feliz melodia !
25
Em cada beijo roubado,
que roubo de ti, meu bem,
sinto o gosto do pecado
que o beijo roubado tem.
26
Em seu vai-e-vem bonito,
a lua em seu caminhar…
Enche de luz o infinito,
de prata, as ondas do mar!
27
Enquanto a ciência avança,
fato novo se descobre…
E o fruto do que se alcança
torna a ciência mais nobre.
28
Esta aliança que um dia,
já guardou nossos segredos;
hoje guarda a nostalgia
das digitais de outros dedos!
29
Esta distância tão triste,
entre nós dois, na verdade,
mede a distância que existe
entre o AMOR e a saudade!
30
Esta dor que em mim persiste
e não me deixa dormir!…
é “aquela” lembrança triste
do que deixou de existir!
31
Este amor que em mim fervilha,
quando estamos sempre a sós…
se for bem feita a partilha,
será eterno entre nós!
32
Eu vejo ó linda criança,
neste teu sorriso lindo,
a mais feliz esperança
das esperanças dormindo!!!
33
Há uma sombra em meu caminho
que me segue…e, mesmo assim…
Nem quer me deixar sozinho
nem diz o que quer de mim!
34
Já escalei morros medonhos,
caminhando passo a passo.
Mas nunca pude em meus sonhos
escalar nuvens no espaço!
35
Já pronta e de vela içada
tremulando de ansiedade,
vai para o mar a jangada
carregada de saudade!
36
Larga a tristeza e acalanta
teus sonhos, por onde fores.
Nada no mundo suplanta
teus lindos sonhos de amores!
37
Mãe preta! teu negro seio
deu-me o mais puro sabor;
nele eu bebi sem receio
a eternidade do amor!
38
Meu Deus! se a chuva caída,
fecunda o sertão no estio,
o inverno é fonte de vida
do sertanejo bravio!
39
Morre a flor na flor da idade,
padece a planta de dor;
a ausência deixa saudade,
até na morte da flor!
40
Morre a tarde!…E ao fim do dia,
na imagem do sol poente,
há tintas de nostalgia
do fim da tarde da gente!
41
Na sinfonia das almas
ensaia-se lindo canto;
ouvem-se preces e palmas:
– Padre João Maria é santo!
42
Na loucura dos meus versos,
e em quase todos seus traços,
há pedacinhos dispersos
do amor que tive em teus braços.
43
Não me faça mais perguntas,
erro assim, não mais cometa…
Talvez, só nossas mãos juntas
possam salvar o planeta!
44
Nas asas de um vento brando,
na espuma branca do mar…
as ondas chegam cantando,
trazendo o sal potiguar!
45
Na vida que se renova,
no Natal que se aproxima,
eu forro a mesa com trova,
e brindo a noite com rima.
46
Nesta longa caminhada
que fazemos sempre a sós…
Nem o silêncio da estrada
quebra o silêncio entre nós!
47
Ninguém é pedra polida,
se não mudar de conduta;
pois, a pedreira da vida
é feita de pedra bruta!
48
No outono triste da idade,
meu lago de solidão
transborda só de saudade
dos meus dias que se vão!
49
Nosso casebre, é de palha
de pau-a-pique a parede.
O amor que aqui se agasalha,
dorme comigo na rede!
50
O aborto, triste ferida,
que nos faz tanto sofrer;
como dói matar a vida,
antes da vida nascer!
51
Ó cigarra destemida
o seu disfarce me encanta,
por não ter nada na vida
e ser feliz quando canta!
52
Ó coqueiro pequenino,
que tanta água nos deu!
Que ironia o teu destino:
– por falta d’água morreu!!!
53
O mundo é roda gigante,
girando sempre a girar,
e eu sou passageiro errante
procurando meu lugar!
54
O outono da vida ingrata,
chega fazendo atropelos:
Joga tinta cor de prata,
na tinta dos meus cabelos!
55
Pelas manhãs vou buscando
minha esperança perdida…
Há sempre um sonho vagando
nas alvoradas da vida!
56
Porteira velha, o gemido
desta dor que te corrói…
é o teu passado esquecido
que em teu presente inda dói!
57
Por teu amor sofri tanto,
foi tão grande o meu desgosto,
que cada gota de pranto
se fez cascata em meu rosto!
58
Prazer é sentir os dedos
de nossas mãos artesãs
pintando os lindos segredos
das auroras das manhãs!
59
Quando a tarde veste o manto,
torna escura a luz do dia…
Saudade dói outro tanto
do tanto que já doía!
60
Quantas lições primorosas,
num pequeno beija-flor,
que beija todas as rosas
enchendo o mundo de amor!
61
Quase seca…E a fonte insiste
em seu lamento de dor!
É o canto ficando triste
e a fonte jorrando amor!
62
Rasga o manto que te cobre,
mostra teu riso e esplendor…
Pois, a cortina, mais nobre,
não cobre um riso de amor!
63
Revendo entulhos e tacos,
na tapera dos meus sonhos,
chorei por ver tantos cacos
dos meus dias mais risonhos!
64
Saudade de amor… lembrança,
que dói mais que qualquer dor!
Nem na velhice descansa,
quem tem saudade de amor!
65
Saudade – no fim do dia,
já sei por que me dói tanto:
– aumenta a melancolia,
dobra as dores do meu pranto!
66
Saudade – seja onde for,
sempre é saudade, meu bem.
Um sentimento de amor
que dói no peito de alguém!
67
Sempre sozinha, aos farrapos,
mas de rosário na mão…
A fé tecida entre os trapos,
remendava a solidão!
68
Se o tempo me desse tempo,
de fazer mais do que faço,
queimava a sobra do tempo
no calor do teu abraço!
69
Sinalizando o caminho,
do nauta na escuridão;
o farol velho, sozinho
é fantasma e solidão!
70
Sonho repetidamente,
vendo um clone em tristes ais,
chorando porque não sente
o carinho dos seus pais.
71
Sou sertanejo e não nego
crestei meus pés neste chão.
Nestas marcas que carrego ,
carrego o próprio sertão!
72
Teu amor que me enternece,
que acaba todo meu pranto,
da sobra faço uma prece,
e ainda sobra outro tanto.
73
Vem das águas cristalinas
e vem da espuma do mar,
o sal das brancas salinas
do meu rincão potiguar!

Ademar Macedo-RN:

Queria ao fim da jornada,
na manhã do meu adeus,
ver o brilho da alvorada
na luz dos olhos de Deus!
1
A distância nos redime
se a saudade nos escolta;
ir pra longe é tão sublime
como sublime é a volta!
2
Adotei o isolamento,
feito um ermitão qualquer.
Pra fugir do casamento
e das manhas de mulher!…
3
A justiça incompetente,
por um deslize qualquer,
toma o dinheiro da gente
e dá todo pra mulher!…
4
Almoço e janto poesia.
E neste meu universo,
mastigo um pão todo dia
amanteigado de verso.
5
A lua, de vez em quando
fica um pouco sem brilhar,
para ficar “espiando”
dois pombinhos namorar!
6
A lua, sem empecilho,
desfilando, linda e nua,
deixa também o seu brilho
“nas poças d’água da rua”!
7
A Lua, que a noite ronda
com o seu lindo clarão,
é a lamparina redonda
que ilumina o meu sertão!
8
Amar… verbo transitivo
que em qualquer conjugação
traz um novo lenitivo
para o nosso coração!
9
À noite, as brisas divinas
dão som aos seus movimentos;
e, “na Lua,” as bailarinas
dançam a valsa dos ventos…
10
Após causar desencantos
e nos fazer peregrinos,
a seca fez chover prantos
nos olhos dos nordestinos!
11
Aquela mão estendida
é Nau que ainda trafega
no mar revolto da vida
que a própria vida renega…
12
A “solidão” me parece,
ser um conforto sem fim…
quando um grande amor me esquece;
“Ela” se lembra de mim.
13
As rosas tem seus floridos
que a “natura” se apodera,
dando beijos coloridos
no rosto da primavera!
14
Assim que começa o dia,
envolto em profundo enlevo,
sinto o cheiro da poesia
em cada verso que escrevo.
15
A vida escreve-me enredos
com finais que eu abomino.
Meus sonhos viram brinquedos
nas mãos cruéis do destino…
16
Causa-me espanto o coqueiro;
algo de bom ele tem…
Mas, sendo torto ou linheiro,
nunca deu sombra a ninguém!
17
Chega a causar agonia,
uma visita sacana,
que vem pra passar um dia,
passa mais de uma semana!
18
Coloquei a foto errada.
Viram logo os menestréis…
Como eu vou subir escada
Se me falta um dos meus pés?
19
Com certa preponderância
eu impus esta verdade:
– Quem inventou a distância
não conhecia a saudade!…
20
Com minha alma amargurada,
envolto em meu sofrimento,
passo inteira a madrugada
jogando versos ao vento…
21
Com o dom que Deus lhe envia,
no riso o palhaço aflora
um semblante de alegria…
Que ele só sente por fora!
22
Como quem faz sua escolha,
disfarçando o desatino,
alterei folha por folha
do livro do meu destino!
23
Com os temas mais dispersos,
eu mesmo me fiz enchente
numa enxurrada de versos
jorrando da minha mente…
24
Com sua língua de trapo
disse, ao ser mandado embora:
– É moleza engolir sapo,
o duro é botar pra fora!
25
Construí dentro de mim,
com minh’alma enternecida,
um teatro onde, por fim,
pude encenar minha vida!…
26
Da Bebida fiquei farto,
bebendo, perdi quem amo;
hoje bebo no meu quarto
as lágrimas que eu derramo.
27
Da fonte que jorra o amor,
Deus, na sua imensidão,
faz jorrar com todo ardor
as carícias do perdão.
28
Da ingratidão praticada
eu tirei uma lição:
– Perdoar, não pesa nada,
pesado…É pedir perdão!
29
Das colheitas dadivosas
que Deus deixa nos caminhos,
uns curvam-se e colhem rosas,
outros, só colhem espinhos…
30
Debruçado sobre a mata,
o luar, tal qual pintor,
pinta as folhas cor de prata
e pinta o chão de outra cor.
31
De maneira indefinida,
por amar e querer bem;
vou dividir minha vida
com a vida de outro alguém!
32
De nada eu sinto ciúme,
nem mesmo da mocidade;
pois hoje eu sinto o perfume
da flor da terceira idade!…
33
Depois do beijo, um aceno,
e, sofrendo em demasia,
bebo doses de um veneno
que a sua ausência me envia.
34
Descobri no envelhecer
que a musa que me enaltece
não deixa o verso morrer,
pois musa nunca envelhece!
35
Desde o tempo de menino
vi o quanto eu sou machão;
pois meu lado feminino
é um tremendo sapatão!
36
De sonhar eu não me oponho
nem sequer me desiludo.
Quem faz de “Paz” o seu sonho,
já fez metade de tudo!…
37
De um olhar triste, alquebrado,
desse meu filho que é “mudo”…
eu vejo, mesmo calado,
seus olhos dizerem tudo!
38
Deus, demonstrando poder,
quando a mulher engravida,
transforma a dor em prazer
na celebração da vida!
39
Deus vendo que não tem fim
essa fé que me conduz,
deixou cair sobre mim
uma cascata de luz!
40
Do fogo no matagal,
na fumaça que irradia,
vejo um câncer terminal
no pulmão da ecologia!…
41
Do meu jeito apaixonado,
envolvente, terno, mudo…
Faço um apelo calado,
onde os olhos dizem tudo!
42
Em busca de ser feliz,
e em prol do amor de nós dois,
quantos atalhos que eu fiz…
Mas só chegava depois!
43
Em humor não me destaco,
mas, por pura peraltice;
mesmo não sendo macaco,
vou fazendo macaquice.
44
Em inspirações, imerso,
fiz do sol o próprio guia
para conduzir meu verso
nos caminhos da poesia!
45
Entre os atos de bonança
e meus pecados mortais,
quando eu botar na balança,
Deus sabe quais pesam mais!…
46
Essas gotas maculadas,
itinerantes no rosto,
são as lágrimas magoadas
que dão vida ao meu desgosto.
47
Esses meus versos doridos
que estão bem perto do fim,
são retratos coloridos
que eu mesmo tirei de mim…
48
Eu aprendi a perder
mesmo sem haver perdido,
também aprendi vencer
“sem humilhar o vencido!”
49
Eu ouvi de um cidadão
brincalhão, sagaz, afoito:
-Melhor ser um cinquentão
do que morrer aos dezoito…!
50
Eu que já nasci Poeta,
digo-lhe nesta obra prima:
– meu coração só se aquieta
depois que eu faço uma rima!
51
Eu, que nunca pude tê-las…
Que é um sonho do menestrel;
sonhei enchendo de estrelas,
meu barquinho de papel!
52
Eu sinto a brisa do vento
como se fosse magia,
soprando em meu pensamento
os versos que Deus me envia…
53
É terapeuta da mente,
mestre maior do saber…
O Livro é o melhor presente
que alguém pode receber.
54
Eu, num desejo medonho,
quis tê-la, mas nunca pude…
Transformar desejo em sonho,
foi minha grande virtude!
55
Eu sou qual um jangadeiro
que a fé no peito tatua…
Num barco sem paradeiro,
sua esperança flutua.
56
Fiz a “pergunta ao espelho”
que para não me ofender :
– disfarçou, ficou vermelho
e não quis me responder!
57
Fiz do quarto um santuário,
pus sua foto no andor
e rezei um novenário
para louvar nosso amor!
58
Fiz minha casa de barro
ao lado de uma favela.
Lá fora, eu sei, não tem carro,
mas tem amor dentro dela!…
59
Fui reviver meu passado
na casa que pai morou…
Um velho espelho quebrado,
foi tudo o que me restou!
60
Hoje na terceira idade,
eu, de amores já vazio,
voltei ao mar da saudade
para ancorar meu navio.
61
Igualmente aos nossos pais,
nos cabelos brancos temos
as impressões digitais
dos anos que já vivemos.
62
Inimigo do trabalho,
é meu primo, o “Paraíba;”
seu emprego é no baralho:
– buraco, truco e biriba.
63
Já quase louco de amor,
envolto num triste enlevo
ponho toda a minha dor
no papel…quando eu escrevo!
64
Lágrimas, águas em fugas,
que num trajeto indolente,
deixam escritos nas rugas,
os sofrimentos da gente…
65
Lágrimas, fuga das águas
por um riacho inclemente
que numa enchente de mágoas
inunda o rosto da gente!
66
Lembranças deixam feridas
que nascem na alma da gente.
Que tenham elas nascidas
no passado… ou no presente!
67
Meu momento mais doído
foi perder quem tanto adoro,
por isso eu choro escondido
para ninguém ver que eu choro!
68
Ninguém calcula essa dor
no coração dos mortais…
Quando a saudade é de amor,
a dor é cem vezes mais !
69
No instante da despedida,
arquivei no pensamento
a tristeza da partida
e a dor do meu sofrimento.
70
No momento em que eu nascia
Deus colocou no meu ser,
um mundo de fantasia,
de poesia e de prazer…
71
Nos momentos mais tristonhos
chega a musa da poesia,
torna reais os meus sonhos
num mundo de fantasia.
72
Nos poemas que componho,
de beleza quase extrema,
eu ponho em verdade um sonho
dentro de cada poema!
73
Numa caminhada inglória,
com minha alma enternecida;
pude ver a minha história
no retrovisor da vida.
74
Num desespero medonho,
acordei quase enfartando,
pois vi no melhor do sonho
que a sogra estava voltando!
75
Num sonho eu me fiz refém,
ao viver uma emoção
que o próprio sonho
a retém na mente e no coração…
76
O pantanal se engalana,
mas eu mesmo desconfio;
que até a própria chalana
sente ciúmes do rio.
77
O papel que eu desempenho
na poesia, não tem preço;
pelos amigos que eu tenho…
Ganho mais do que mereço!
78
O tempo austero e sisudo
põe na memória da gente
o alzheimer que apaga tudo
do vídeo tape da mente!
79
O tempo, já quase em fuga,
para aumentar meu desgosto,
fez nascer mais uma ruga
entre as rugas do meu rosto!
80
O tempo, qual sanguessuga,
para aumentar meu desgosto,
fez nascer mais uma ruga
entre as rugas do meu rosto!
81
O vencedor tem que ter
alguns tropeços por meta,
para só depois obter
uma vitória completa!
82
O vento da minha Fé,
de maneira enternecida,
sopra, mas deixa de pé
as dunas da minha vida!
83
O vício sempre nos joga
numa dor que nos revolta:
– ver um filho usando droga,
numa viagem sem volta!
84
Para alcançar a pujança,
basta-me ter, sem fadigas,
a força e a perseverança
do Trabalho das formigas!…
85
Para alcançar o perdão,
não há fronteira ou entrave:
– a porta do coração não
tem ferrolho nem chave.
86
Para contar sua história,
a pobre cigana cria
uma verdade ilusória
que ela mesma fantasia!
87
Para os sem fé, os tristonhos,
a vida deles termina
sem sequer colher os sonhos
que a própria fé nos ensina…
88
Partiste deixando a dor,
e eu talvez não me acostume
a viver sem seu amor,
seu carinho e seu perfume!
89
Passam sempre em meu portão,
trazendo um fardo de dor,
crianças que não têm pão,
pedindo “um pão por favor”!…
90
Perdão, palavra bonita
que se pede, que se implora;
palavra que é muito dita…
Mas, só da boca pra fora!
91
Pela insensatez da idade
e pelo que o amor requer,
choro, às vezes, de saudade
fingindo outra dor qualquer!
92
Pelas “coisas” que fazia,
vive o malandro enjaulado;
usando de noite a dia
o seu “pijama listrado”.
93
Perdido, pois, nas rotinas,
nos labirintos da dor,
encontrei entre as ruínas
pedaços do nosso amor…
94
Perdi minha mocidade,
toda hombridade que eu tinha…
Vivi sua identidade
em vez de viver a minha!
95
Plantei um pé de tomate
e fiz tanta adubação,
que ele está dando abacate,
alho, cebola, e melão…
96
Política, era a vizinha.
Ela trocou por Brasília
todos empregos que tinha…
Menos o bolsa família.
97
Por conhecer meu valor,
mesmo já no envelhecer,
vou em busca de outro amor…
Não tenho tempo a perder!
98
Por minha fé ser tamanha,
pude remover enfim,
pedaços de uma montanha
que tinha dentro de mim…
99
Por seu próprio desatino,
tem gente que se maldiz
pondo a culpa no destino
por não ter sido feliz!
100
Por ter a língua de trapo,
disse, ao ser mandado embora:
– É moleza engolir sapo…
o duro é botar pra fora!
101
Por ter uma fé suprema
não sofrerei agonia…
Se eu sinto uma dor extrema,
dou-lhe injeções de poesia!
102
Por ver o sonho desfeito
de um grande amor, de verdade,
na varanda do meu peito
eu vi nascer a saudade…
103
Posso jurar (não é finta):
– eu não temo pesadelos,
pois fiz da saudade a tinta
para pintar meus cabelos…
104
Preso e longe do seu lar,
canta o pássaro inocente,
no intuito de amenizar
a dor que ele mesmo sente!
105
Pra poder me atazanar,
por vingança ou por castigo,
minha sogra vem morar
parede e meia comigo!…
106
Procuro sempre crescer
mesmo enfrentando empecilhos,
mostrando em meu proceder,
exemplos para os meus filhos…
107
Quadro de extrema beleza,
de cor verde e cor de anil,
onde a própria natureza
pinta o mapa do Brasil!…
108
Quando a inspiração lhe acena,
o bom Trovador se expande.
Numa Trova tão pequena,
faz um Poema tão Grande!
109
Quando a inspiração me envia
a um cenário de beleza,
eu dou beijos de poesia
na face da natureza!
110
Quando a sonhar eu me ponho,
vejo de forma extremada,
que das ilusões do sonho
não restou-me quase nada!
111
Quando de um amor me aparto,
em tristezas me esparramo:
– bebo sozinho em meu quarto
as lágrimas que eu derramo!
112
Quase toda madrugada,
Já vendo os raios do dia,
busco um verso à minha amada
numa fonte de poesia…
113
Quem o livre-arbítrio prega
caminha contra a verdade.
Pois eu não creio em quem nega
a si mesmo…a Liberdade!
114
Quem semeia de verdade,
tendo o amor como receita,
colhe frutos à vontade
no fim de cada colheita!
115
Que venham chuva e calor,
que os ventos desçam ou subam,
pois ninhos feitos de amor
tempestades não derrubam…
116
Retratando sua história,
o pobre cigano cria
uma verdade ilusória
que ele mesmo fantasia!
117
Saudade… dor cruciante
que nos maltrata demais;
palavra sempre constante
nas Trovas que a gente faz!
118
Se a inspiração me inebria,
com temas, os mais dispersos;
mato a sede de poesia
na eterna fonte dos versos…
119
Sedento dos teus abraços,
num desejo que é só nosso,
quero correr pra os teus braços,
mas de muletas… Não posso!…
120
Sem galinha cabidela,
sem ter arroz nem feijão,
hoje eu botei na panela
meu sapo de estimação!…
121
Sempre quando a noite nasce,
traz, na escuridão dos campos,
a luz que Deus pôs na face
dos pequenos pirilampos…
122
Sempre que eu vou me deitar
acompanhado na cama;
já que eu sei que vou tirar…
– Pra que botar o pijama?
123
Sem ter escolha, a criança,
pobre inquilina da rua,
na sua desesperança,
dorme sob a luz da lua!
124
Se não puder dar um bolo,
dê um pedaço de pão…
A caridade é um tijolo
da casa da salvação!
125
Se não vês mais a saída,
se estás perdido e sozinho…
É nos atalhos da vida
que a gente encontra o caminho!
126
Se o livre-arbítrio é uma escolha,
e, não vendo outra saída,
arranquei folha por folha
do livro da minha vida…
127
Se o verso se faz presente
e a inspiração se irradia,
abro o celeiro da mente
onde armazeno poesia.
128
Se por piedade ou por pena,
o casal NÃO se desfaz;
vivem os dois triste cena…
Onde nem pena tem mais!
129
Sinto ciúme, é verdade,
quase morro de ciúme
quando passas na cidade
exalando o seu perfume!…
130
Sinto um dom que me extasia
e uma inspiração sem fim,
quando a musa da poesia
passeia dentro de mim.
131
Sou matuto em alto astral
e um velho muito ranzinza.
Só festejo o Carnaval
na quarta-feira de cinza!
132
Sozinho nas madrugadas,
em noites de solidão,
ouço as notas magoadas
das cordas de um violão.
133
Sua ausência, por maldade,
deixou, talvez, por vingança,
um punhado de saudade
dentro da minha lembrança!
134
Tal qual um pequeno horto,
sem plantação, sem jardim,
sou Nau e procuro um porto
que ainda espera por mim.
135
Tenho fábrica de poemas
e um galpão de fantasia.
Sou desbravador de temas…
Sou viciado em Poesia.
136
Teve um chilique o Oscar
ao ver seu filho, um nissei,
ser o primeiro lugar
numa passeata gay.
137
Tive amores – não sei quantos
– Saudades tive, é verdade.
Mas sei… derramando prantos,
ninguém mata uma saudade!
138
Toda dor deixa sequela,
mas devido eu sofrer tanto,
minha dor só se revela
na angústia triste do pranto.
139
Todo mundo me cobrando,
parece um alto relevo;
a dívida vai aumentando,
quanto mais pago, mais devo!
140
Traz alentos, novas vidas,
muda a cor da plantação;
a chuva sara as feridas
que a seca faz no sertão.
141
Uma fé que não se abala,
dai-me, Senhor, sem medida,
para eu poder semeá-la
pelos roçados da vida.
142
Uma lição foi tirada
do tribunal da paixão;
perdoar, não pesa nada,
pesado é pedir perdão!…
143
Um desejo que me abrasa,
no Ano Novo é ver os nobres,
levando as sobras de casa
para a casa dos mais pobres!
144
Vejo sentadas no chão,
trajadas de desamor,
crianças comendo pão
amanteigado de dor!
145
Vendo o navio ancorado
e o lindo sol quase posto,
sinto, lembrando o passado,
uns pingos d’água em meu rosto..
146
Versos já fiz – não sei quantos
– relembrando a mocidade.
Hoje servem de acalantos
para ninar a saudade.
147
Visita pra meter medo,
que nem vassoura adianta,
É aquela que chega cedo
e só sai depois que janta!
148
Vou vender meus poemetos
na feira, seja onde for,
e comprar alguns espetos
para espetar “julgador”!

Francisco Neves de Macedo-RN:

1 Antes do verbo era o nada,
o caos do “não-existir”…
Mas, Deus, de forma ordenada,
fez cada coisa surgir.
2
A trova nascida da alma
tem mensagem diferente,
ela incendeia e acalma
as atitudes da gente.
3
Bateu na porta da frente
e correu para a de trás.
Desta forma inteligente,
pegou dez “sócios” ou mais!
4
Buscando a felicidade
por este mundo sem fim…
Descobrir uma verdade:
– Ela está dentro de mim!
5
Ciúme não é terror
e não há quem me convença
que seja prova de amor
ou que não seja doença.
6
Contemplo à noite, à janela…
e entre as estrelas e a lua,
eu sinto o perfume dela
que no meu quarto flutua.
7
Eu digo e tenho certeza:
– Cigarro só traz derrota,
numa ponta a brasa acesa,
na outra ponta um idiota.
8
Garrancho, graveto, espinho,
feito de amor, que eu suponho,
vai aquecer nosso ninho
para “chocar” nosso sonho.
9
João-de-Barro, um engenheiro,
que jamais leu apostila.
Seu ninho é quase um mosteiro:
– poema feito de argila!
10
Na rapidez da informática
meu sonho dura um segundo,
numa proposta automática:
– paz, ponto com, ponto mundo.
11
Neste emadrugadecer
em silêncio sepulcral,
fiz o check-in do meu ser
pro reino do amor total!
12
O meu vício é controverso,
tem dependência e vicia.
sou dependente do verso,
rima, métrica e poesia!
13
Proibido proibir,
esse beijo de nós dois.
Eu beijo e vou assistir
o que acontece depois!
14
Saudade é o fundo de um poço
onde minha alma vegeta,
mantendo vivo, no fosso,
o coração do poeta!
15
Saudade, uma imensa conta,
com juro que sempre dobra.
Se chega um dia a tal monta
vem a solidão e cobra!
16
Saudade, um grande cercado,
sem cancela e sem mourão;
onde vivo “enchiqueirado”
à sombra da solidão.
17
Só uma prisão eu respeito,
quando rendo-me à paixão…
Qualquer castigo eu aceito,
se a cela é o teu coração!
18
Toda espera é dolorida…
Nos faz sofrer ou chorar,
mas é pior, nesta vida,
não ter por quem esperar.
19
Três invenções sem futuro:
– carro, mulher e baralho.
As três me deixaram “duro”,
não sei quem deu mais trabalho!
20
Uma cena inusitada,
tão bonita e comovente.
Em ribalta improvisada,
com público inexistente…
21
Uma estrada, uma esperança,
uma mesma direção….
Sonho livre de criança
nas asas do coração!
22
Um passeio de canoa,
com minha mulher amada,
em Veneza, numa boa.
e eu não queria mais nada!
23
Vença o medo, a escuridão…
Desistir, nunca, jamais!
Vá, lute até a exaustão,
perseguindo os ideais.
24
Vida, a longa caminhada:
– Nascer, viver e morrer.
E ao final sua morada,
você não pode escolher.